L.O.A.S.palooza – Edição 2014 – Dia 2

Lollapalooza Brasil '14

Demorou, mas é hora de conferir como foi o 2º dia do Lollapalooza Brasil 2014 na visão do espinafrando.com! Acompanhem-me.

O Cenário

Três mudanças em relação ao sábado, todas para melhorar o fluxo de pessoas:

  • As mesas do Chef's Stage foram retiradas, aumentando o espaço de circulação.
  • O bar à esquerda do palco Interlagos foi desativado para não atravancar o deslocamento para o palco Skol entre shows.
  • O mesmo aconteceu com os food trucks que ficavam ainda mais à esquerda, ladeando o corredor. Infelizmente, só descobri que eles foram transferidos para a direita do palco Interlagos no fim da noite. Queria ter experimentado o burguer.

O Público

Embora a variedade de estilos tenha se mantido, a média de idade aumentou em pelo menos uma década. Efeito do line up mais maduro.

***

Chega de panorama, que o roteiro do domingo é maior e lotado de shows daqui, ó.

***

Alive! And Kicking…

Apanhador Só

Hipster até a medula, o Apanhador Só abriu o palco Interlagos com sua MPB-indie-pra-barbudo-derivada-de-los-hermanos. O público, pequeno e dedicado, se esbaldou dançando e cantando em coro. Não deu pra aguentar mais do que 60 segundos, tempo pra gravar um videota tosco e partir para o Chef's Stage rangar.

Raimundos

Após a overdose de sons hipsters/indies/alternativos até aqui, não que tenha algo de errado com isso, o primeiro sopro de nostalgia veio com o show dos Raimundos e seu “eu-quero-é-rock-diabo”.

Continua barulhento e engraçado e adolescente testosterônico, muito embora Digão não tenha a energia e o escracho de Rodolfo como band leader.

Se por um lado foi meio deprê ver os tiozões barrigudos batendo cabeça em louvor, como se Raimundos fosse o melhor que o rock brasuca já produziu (não é), também foi divertido ver a petizada que não era nascida quando a banda nasceu curtindo genuinamente o forró-core.

Johnny Marr

Como diria a camiseta de R$80,00 vendida na lojinha do evento, “JOHNNY FUCKING MARR!!

O guitarrista dos Smiths, promovendo sua carreira solo, cometeu um show mágico e HISTÓRICO no palco Ônix, pra ficar na memória por um bom tempo —algo que iria se repetir por mais 2 vezes durante o domingo.

O setlist misturou canções do ótimo The Messenger (ficou com o 3º posto na categoria Discos do Ano – Medalhões, dum site chamado espinafrando.com) + clássicos dos Smiths + I Fought The Law, a cover da cover (evocou a versão mais famosa, do Clash, que por sua vez já homenageava a original, composta por Sonny Curtis e gravada por sua banda, The Crickets, em 1959). E a parte legal é que o público —velho e novo— conhecia e cantava junto, inclusive as mais recentes.

É claro que o delírio e catarse vinham com as músicas smithnianas, como era de se esperar. Mas o que ninguém esperava era Marr chamar seu antigo colega de banda, Andy Rourke, para comandar o baixo numa versão eletrizante de How Soon Is Now, fato inédito em sua turnê sul-americana.

Repertório à parte, Johnny Marr provou que é Guitar Hero de primeira categoria e tem cancha pra comandar multidões. Foi daqueles shows em que você sai com um sorriso de orelha a orelha, já planejando aprender a tocar guitarra e montar sua banda de rock. Altamente inspirador. E seus vocais estavam até melhores do que no estúdio, espantando o fantasma de Morrissey.

Savages

As Savages iniciaram o 4º show do dia com alguns minutos de atraso. Houve muita dificuldade dos técnicos para acertar a mesa de som e microfonar a bateria. Nada que tenha prejudicado a experiência de modo sensível.

E que experiência! Depois de ver meio Smiths, os poucos afortunados que optaram pelo palco Interlagos —ao invés do pop genérico de Ellie Goulding (com direito à camisa clichê da seleção brasileira) no palco Skol— tiveram a oportunidade de presenciar a ressurreição do Joy Division em corpos femininos.

E quando se fala em Joy Division, não é como se as garotas tentassem apenas copiar o som de Ian Curtis, Peter Hook, Bernard Summer e Stephen Morris —como faz o Interpol. A questão é que Savages parece tão inovador (e agressivo, e desconcertante, e cheio de personalidade) quanto o Joy Division pareceu em 79 (só quem viveu a explosão sabe, ou quem assistiu A Festa Nunca Termina). Qualquer comparação com Siouxie & The Banshees é descabida: as Savages as botam no chinelo.

Uma baixista insana, uma guitarrista fria e letal como o gelo, uma baterista que é pura energia e força bruta e uma vocalista que tem a classe de David Bowie e o carisma de Iggy Pop. Todas de preto. E Jehnny Beth, a líder, de escarpins cor-de-rosa.

Enquanto o único —e ótimo!— álbum soa cristalino e soturno, o que se vê no palco é uma explosão pós-punk e os amplificadores soltam um som poderoso e sujo.

A guitarra, completamente distorcida, é uma extensão de Gemma Thompson. Não esboçou um sorriso, se preocupou apenas em esmerilhar. A bateria era surrada sem dó por Fay Milton, enquanto Ayse Hassan transava com seu baixo. E o conjunto tinha um domínio de palco absurdo.

No encerramento, ainda tivemos a ótima canção Fuckers, que será lançada em EP em 5 de maio. Antes de começar, Jehnny Beth traduziu o refrão para português como: “Não deixe os filhos da puta te derrubarem”.

É o tipo de banda que está pronta pra brilhar antes até de gravar o primeiro disco. Com maturidade e postura suficientes para domar o sol.

Pixies

No palco Skol, Black Francis, Joey Santiago, Dave Lovering e Paz Lenchantin aparecem, levantam os braços e emendam uma sequência de 23 músicas sem respiro, começando por Bone Machine.

Não é preciso olhar pro palco, esperar umas frases em português de gringo ou aquele momento karaokê. Basta ouvir o que sai dos alto-falantes.

Foda-se a cara de enfado do Black Francis e do Joey Santiago. O que importa é o setlist quase perfeito, a estridência da garganta do vocalista rotundo e o poder do som.

Pixies foi um tesão! Repertório matador, execução idem (ainda que Lovering tenha perdido o tempo na bateria vez ou outra, e que a novata Paz Lechantin não tenha o carisma e apelo de Kim Deal). As canções novas ficaram bem ao vivo e as clássicas continuam com força total. Só faltou Debaser.

Não houve espaço pra gracinha ou interação com a plateia. E nem precisou. O grande público cantou e pulou como se não houvesse amanhã, enquanto a lua ia dando as caras à esquerda do palco.

Aliás, tenho uma teoria sobre a postura da banda, que leva tantos a taxarem o Pixies como bons de estúdio e ruins de palco. Não é que eles toquem apenas pra si e ignorem o povo que pagou pra assisti-los. Pelo contrário: acho que o que eles fazem é economizar energia com adereços desnecessários e focam em entregar o melhor que podem e possuem –suas músicas.

Em resumo, um show HISTÓRICO.

Soundgarden

Fiquei com preguiça de ir até a putaqueopariu do palco Ônix. Fico devendo.

Jake Bugg

Outro artista chamado de marrento por não se “relacionar” com o público.

Jake Bugg, estrela em ascensão da novíssima geração, presença constante nos grandes festivais ingleses, já abriu pros Rolling Stones e foi apadrinhado pelo Noel Gallagher.

O moleque é verdadeiramente talentoso e não está prosa. Sabe compor e sabe tocar, passeando pelo folk, pelo rock sessentista e pelo blues, com um show energético que atraiu uma multidão de tietes teens —os tios, presumivelmente, migraram para a 1ª apresentação do Soundgarden em solo verde e amarelo.

O único porém: sua voz cansa e pode causar enjoo se ouvida por mais de meia hora. O ministério do espinafre adverte etc.

Mesmo assim, não dá pra discutir a qualidade das composições. Bugg é um guri fera, que ainda provou ter bom gosto ao mandar bem demais com a cover de Neil Young: My My, Hey Hey!

Arcade Fire

Uma celebração do alt rock, uma missa em comunhão com a plateia, uma festa em cima do palco. Arcade Fire foi lindo demais! Grandioso demais! Espetáculo demais!

Indie é coisa do passado, o negócio agora é arena. Win Butler assumiu de vez os mantos de band leader e de showman, com bastante propriedade. O que não quer dizer que o restante da banda possa ser tratada como resto. Há tanta gente no palco, com tanta diversidade de estilos, que chega a ser espantoso que o grupo possa, ao mesmo tempo, soar coeso e ter tantos bons instrumentistas. A impressão é que, enquanto Win comanda o público, Régine Chassagne comanda a banda.

A comoção foi tamanha que só é comparável ao tamanho do público, que sabia letras de cor e dançava ao som de um repertório que privilegiou os discos Reflektor, The Suburbs e Funeral, deixando um pouco de lado Neon Bible, mais anticlimático (apenas No Cars Go foi tocada na íntegra, além de uma citação à My Body Is a Cage). E o Arcade Fire não poupou hits: em meia hora de show, foram executadas Reflektor, Rebellion (Lies), The Suburbs e Ready to Start. É pena que eu tenha perdido a catártica e pesada Normal Person, melhor música do álbum mais recente, que ficou para o fim, antes de Wake Up. O que não se faz por amor?

New Order

Por amor, se abandona o melhor show do festival no meio para ver uma das bandas preferidas de sua cara-metade.

New Order também foi histórico: além de banda seminal pré-Madchester, também é meio Joy Division, afinal de contas. Mas histórico nem sempre é sinônimo de incrível:

  • Peter Hook faz MUITA falta. Tanto em presença quanto em sonoridade. Seu substituto não dá conta do recado.
  • Bernard Summer chegou ao ponto de ser confundido com o Tio Gagá do Almoxarifado. De dar pena. As tentativas de se comunicar com a plateia são constrangeradoras.
  • Gillian Gilbert continua tocando bem, mas está a cara do Laerte.
  • O set list é CLÁSSICO. Mas parece faltar tanta confiança à banda que se sentem obrigados a colocar os nomes das músicas no telão, pra não restar dúvida de que isso que toca é mesmo Blue Monday.
  • A plateia contribui para deixar tudo um pouco mais patético, com cara de fim de feira. Tiazonas com idade para serem avós em seu último ataque de rebeldia, fumando maconha e dando em cima de qualquer ser com metade de sua idade que passe em frente.
  • Enquanto o Arcade Fire encerrava de forma apoteótica, o New Order reservou Love You Tear Us Apart pra fechar o show. O que poderia ser fantástico acaba se provando depressivo —não pelo conteúdo da letra, mas pela tom de banda cover de si mesma.

***

E assim, com fogos de artifício pipocando no céu, terminou o Lollapalooza Brasil '14. Uma edição com cara de grande festival internacional, com muito mais acertos do que escorregadas.

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Top 5 Shows do Lolla

  1. Arcade Fire
  2. Johnny Marr
  3. Nine Inch Nails
  4. Pixies
  5. Savages

 

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