espinafrando a estreia: O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro

O 2º episódio das aventuras de Peter Parker (Andrew Garfield) e Gwen Stacy (Emma Stone) chegou aos cinemas. E episódio é o termo mais adequado para descrever o filme.

De certa forma, o diretor Marc Webb conseguiu transcrever para as telas uma sensação que é bastante familiar a quem acompanha histórias em quadrinhos mensais (ou, ainda, uma animação semanal): o continuísmo, com tudo que há de bom —o avanço inexorável de uma trama sem fim— e de ruim —a certeza inabalável de que, por mais que o roteiro dê seus pulos e piruetas, com a intenção de adicionar a todo instante uma nova carga dramática (algo que não se consegue acertar sempre), o status quo nunca será alterado.

A aura episódica não se limita ao panorama maior da quadrilogia planejada pela Sony Pictures, permanecendo dentro da própria estrutura deste filme, com uma sequência bastante linear de arcos narrativos autocontidos. Há a cena que estabelece o Homem-Aranha mais experiente, totalmente à vontade com seu papel de super-herói; seguida pela cena que trata do relacionamento entre Peter e Gwen face aos acontecimentos do 1º filme; seguida pela criação do vilão Electro (Jamie Foxx) e o primeiro round com o Amigão da Vizinhança; seguida pela introdução de Harry Osborn (Dane DeHaan, repetindo os trejeitos de seus papéis em Poder Sem Limites e O Lugar Onde Tudo Termina); seguida pela resolução do mistério envolvendo os pais de Peter Parker (que, diga-se, foi um pouco mais satisfatória do que se prenunciava); e por aí vai. Tudo bem esquemático, como um fluxograma de processos, e quase sempre bem executado.

Como tem se tornado regra com filmes de super-heróis, a sequência é sempre melhor que o filme de origem. Não é diferente com O Espetacular Homem-Aranha. Aqui, acentua-se aquela primeira impressão de que Andrew Garfield e Emma Stone encarnam com perfeição as facetas escolhidas para representar seus personagens das HQs. A ação está mais presente, mais fluida e bem mais espetacular. Sally Field rouba todas as cenas com sua Tia May, em desempenho marcante em relação ao primeiro filme. Visualmente, tivemos avanços em várias frentes: design de produção (o novo uniforme do Homem-Aranha é o destaque óbvio, mas valem menções aos figurinos “civis”, à cidade de Nova York e aos vilões —ainda que estejam conceitualmente distantes dos gibis clássicos), efeitos visuais (o dinamismo desse Homem-Aranha faz com que o herói do Sam Raimi pareça sofrer de reumatismo precoce) e fotografia (colorida e cristalina).

Infelizmente, a sequência também traz os defeitos de seu antecessor, sendo o principal a falta de um bom montador —essencial para deixar na sala de edição os excessos cometidos pela superestimada dupla de roteiristas Alex Kurtzman e Roberto Orci, uma vez que Marc Webb parece não ter o bom senso para cortá-los antes da filmagem. As cenas principais são ótimas, mas o conjunto é enfraquecido com uma gafe de grandes proporções a cada 15 ou 20 minutos. Variam de coisas completamente dispensáveis como “o conflito da aviação” e “as grades que separam o público das brigas entre supersseres” até verdadeiros jatos de vômitos que causam paralisia cerebral como “o esconderijo secreto de Richard Parker”, “o carcereiro-cientista de batom rosa, cabelo espetado e sotaque alemão afetado” ou “o desvio de personalidade acima da caricatura de Max Dillon, pré-transformação em Electro”. Se a tesoura comesse um pouco mais solta, ainda traria como benefício colateral a diminuição da metragem: as 2 horas e 22 minutos de filme são cansativas.

Outro problema recorrente das duas aventuras é a dificuldade visceral que diretor e roteiristas têm para desenvolver vilões de maneira satisfatória. Parece haver tanto zelo para que nenhum elemento venha eclipsar o Homem-Aranha que acaba tornando obrigatório que seus antagonistas sofram de falta de personalidade ou motivações decentes. São extremamente simplistas.

Ainda há a introdução de um elemento negativo novo: a falta de coesão narrativa. Deus me livre de dar (mais) poder ao departamento de marketing na construção das histórias, mas O Espetacular Homem-Aranha 2 incrivelmente padece da falta de um público-alvo bem definido, flutuando entre a seriedade dramática para adultos problemáticos e o absolutamente infantil (e não há nada de errado com isso, pelo contrário: o objetivo primário das aventuras de super-heróis deveria sempre ser o de encantar e inspirar as crianças —satisfazer marmanjos barbados tem de ficar em 2º plano).

Uma característica interessante é que a Jornada do Herói de Campbell não dá as caras por aqui. Mais incrível é constatar que, dessa vez, também não faz falta nenhuma. Não estou concluindo que há limites para o crescimento moral, espiritual, físico e intelectual de qualquer personagem, mas que a construção de uma persona através do aprendizado não é o único caminho a ser trilhado pela ficção no cinema. É refrescante poder assistir a uma história em que o caráter do herói já está bem estabelecido, livre da obrigatoriedade do conto de formação. De fato, a única coisa que falta ao Aranha de Webb é pontuar de forma mais clara que as ações de Parker são conduzidas pelo mote “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. A troca pelo sutil “trazer esperança às pessoas” (que ele encara como sua responsabilidade como herói) causa confusão sobre suas motivações em algumas cenas.

O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro é um tanto irregular. Ainda assim, é exagero acusá-lo de ser sequer remotamente parecido com os Batmans de Joel Schumacher, como parece ser o comentário geral pelas redes sociais. Por mais fora de propósito que a afirmação a seguir possa parecer, especialmente vindo de alguém que se autointitula “espinafrando”, me parece que há um excesso de má vontade dos fãs para com o Cabeça de Teia do Webb e do Garfield. Dá tranquilamente pra repetir a mesma conclusão do 1º episódio: o saldo final é positivo, com mais acertos do que erros. Agora, resta torcer para que os produtores contratem um bom editor para as partes 3 e 4. Que o lema daqui pra frente seja: “Corta!”.

 

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