talk show, com My Magical Glowing Lens – a banda de uma garota só

Improvável ou inusitado. São as palavras que vêm à mente para descrever tudo que envolve o My Magical Glowing Lens.

A começar pelo extenso nome, com jeitão de filme indie ou livro confessional. Dificilmente o leitor desavisado faria a associação imediata com uma banda de rock.

Aí você dá play no EP homônimo e descobre 4 faixas com produção sofisticada —rock psicodélico com pitadas de guitarras distorcidas à Kevin Shields, camadas de som sobrepostas, clima etéreo, surreal e/ou hipnótico— cantadas em inglês por uma voz feminina ao mesmo tempo doce e séria.

Então, você descobre que a dona da voz também toca todos os outros instrumentos, encara o My Magical Glowing Lens como projeto audiovisual, tem apenas 25 anos e é brasileiríssima do interior do Espírito Santo (do Estado, não da Santíssima Trindade). Muito prazer, Gabriela Deptulski, mestranda em Filosofia.

Em tempos em que qualquer cantora de MPB de barzinho se diz e diz fazer “rock’n’roll”, Gabi e seu My Magical Glowing Lens deixa o discurso de lado e faz à vera. E ainda faz (muito) bem feito. Não é pouco.

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As fotos que ilustram esta entrevista são todas produzidas pela Gabi, e podem ser encontradas no tumblr do My Magical Glowing Lens.

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talk show, com My Magical Glowing Lens – a banda de uma garota só

[@espinafrando]: Como nasceu o projeto My Magical Glowing Lens? De onde surgiu o nome?

[Gabriela Deptulski]: Olha, ele nasceu do meu interesse por produção musical. O nome surgiu de uma ideia bastante maluca: o projeto seria uma lente mágica através da qual eu olharia para as coisas ao meu redor e as tornaria mais coloridas e brilhantes.

[@e]: Há quanto tempo você toca/compõe? Quanto tempo dedica ao projeto por semana?

[GD]: Desde os 11/12 anos. Eu passo praticamente todo meu tempo livre tocando, compondo, pesquisando sobre equipamentos, estudando sobre mixagem etc. Não tem ‘horas semanais’, não é um trabalho: tem tempos que me dedico por dias e dias sem parar, tem tempos que fico só pensando sobre.

[@e]: Quais são suas influências? O que te levou a resgatar o estilo shoegaze e investir na psicodelia?

[GD]: Eu nunca tentei resgatar o shoegaze. Nunca quis resgatar nada, quero exatamente o contrário: me libertar do passado. A psicodelia foi o que abriu espaço pra minha mente trabalhar de modo mais livre. Eu gosto de entender a psicodelia no rock como os registros musicais de estados mentais inusitados: você sente algo muito fora do comum e então tenta recriar tudo em uma música, a fim de que os outros também possam ver e sentir essas coisas inusitadas. Por exemplo, o que os Beatles mostraram com a música Because: aquele sentimento de olhar para coisas muito simples e achar bonito demais, de chorar só porque o céu é azul; isso é um desses estados. É desse modo que o My Magical investe na psicodelia.

[@e]: Como é seu processo criativo? Quais suas fontes de inspiração? Que técnicas utiliza? Prefere musicar ou escrever letras? Conte-nos o que você faz para compor e gravar.

[GD]: Não tem um padrão. Quando começo a fazer uma música as coisas vão acontecendo: posso fazer primeiro a bateria, depois algumas guitarras, gravar a voz, retirar, acrescentar elementos… até que tudo de repente toma forma e, quando você menos espera, tem algo saindo dos seus alto-falantes e fazendo você nem acreditar que foi você mesma quem fez aquilo.

[@e]: Até onde você quer chegar com o My Magical Glowing Lens? Deixe a modéstia de lado.

[GD]: Quero me dedicar a isso o maior tempo possível, compartilhar as gravações e fazer as músicas funcionarem ao vivo (para conseguir compartilhá-las de modo mais intenso). Acho que não é tão difícil conseguir isso quando você não tem uma mente mercadológica que quer um grande público, muito dinheiro e todo esse tipo de coisa.

[@e]: Tem intenção de montar uma banda com outros integrantes ou pretende seguir como banda-de-uma-garota-só? Por quê?

[GD]: Com uma banda, tudo teria muito mais feeling. Mas, pra ficar legal, teríamos de fazer tudo com muito cuidado. Caso contrário, a originalidade dos timbres se perderia completamente. Eu estou à procura de pessoas interessadas em colocar isso pra frente comigo, mas talvez eu não consiga encontrar e tenha de seguir sozinha mesmo.

[@e]: Quais os desafios técnicos, intelectuais e mercadológicos que você enfrenta com o My Magical Glowing Lens?

[GD]: O único problema é o financeiro: comprar equipamentos —são muito caros. Eu não enfrentei problemas mercadológicos porque a “banda” ainda é completamente independente. Problemas intelectuais não são exatamente um problema, porque eles instigam a criação.

[@e]: Dá pra viver de música no Brasil? Como você se sustenta?

[GD]: Acho que sim, mas não deve ser fácil. Você deve ter que ralar por anos até conseguir alguma coisa, e existe a possibilidade de trampar por décadas e mesmo assim nunca conseguir viver disso. O My Magical atualmente é sustentado pela minha bolsa de mestrado.

[@e]: Por que cantar em inglês? Está mirando o mercado externo?

[GD]: Componho em inglês porque não consigo fazer boas composições em português. Isso é bastante frustrante pra mim, eu gostaria muito de conseguir. Mas no final de tudo, essa incapacidade me ajuda, pois, com uma língua estrangeira, tudo ainda é um aprendizado. Desse modo, fica mais fácil criar coisas novas.

[@e]: Além do BandCamp, onde mais podemos encontrar o seu trabalho? Já pensou em publicar no iTunes ou distribuir via Rdio, Deezer e afins?

[GD]: Acho que o SoundCloud e o BandCamp bastam, não? (risos) Dá pra baixar grátis pelo BandCamp também. Mas pensando bem, agora acho que vou colocar nesses meios também. Pode ser interessante, facilitaria o acesso.

[@e]: O que podemos esperar do My Magical Glowing Lens no futuro próximo? Está gravando um álbum ou novo EP? Dá pra dar um gostinho da nova música em que você está trabalhando pra gente?

[GD]: Eu estou gravando um single. Infelizmente não dá pra mostrar, pois ele ainda está bem cru. Porém, posso adiantar que ele trará uma surpresa! O próximo passo será organizar a apresentação ao vivo e, enquanto isso, continuar compondo, gravando, pesquisando…

[@e]: Como é a cena rocker capixaba?

[GD]: É fantástica! Nós temos excelentes bandas de rock. E não só isso, temos gente produzindo em todos os âmbitos artísticos.

[@e]: Em quais bandas novas tem prestado atenção?

[GD]: O Boogarins, porque me identifico com eles: influência dos 60s, Beatles, Mutantes, Clube da Esquina, Tame Impala, Lo-Fi… Das coisas aqui do estado, gosto do We Are Pirates, The Muddy Brothers e Mango. Das bandas mais famosas, Tame Impala, Pond e Melody’s Echo Chamber.

[@e]: Sexo, drogas ou rock’n’roll?

[GD]: Essa relação é antiga, hein? Quem sou eu pra desfazê-la. Escolho os três juntos!

[@e]: Pra encerrar, como artista, imagino que você deva ser ávida consumidora de cultura pop. O que você recomenda aos leitores do espinafrando.com? Vale quadrinhos, livros, séries, filmes ou música.

[GD]: Recomendo que sejamos livres! (risos) Agora, falando sério, recomendo as bandas The Muddy Brothers, We Are Pirates e Mango. Nos quadrinhos, a revista Prego e as histórias do Diego Gerlach. Série de TV cito Freaks and Geeks; no cinema, Jim Jarmusch; no youtube, TV Quase. Na literatura, recomendo Apontamentos sobre o Delírio do Daniel Mello. Na fotografia, indico o projeto Provando a Existência da Lou ISky.

[@e]: É isso aí, Gabi! Obrigado pela entrevista e fico torcendo pelo seu sucesso. Uma certeza a gente já tem, além da ansiedade pelas novas músicas: nunca antes na história desse país uma bolsa de mestrado de filosofia produziu algo tão bacana e cheio de potencial quanto o My Magical Glowing Lens.😉

 

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