espinafrando a estreia: Godzilla

Lá se vão 60 anos em que temos a presença do monstruoso Godzilla no imaginário popular. Mesmo que você não tenha visto nada do bichano, sabe do que se trata: um gigantesco lagarto, com ares de dinossauro, que destrói Tóquio repetidas vezes (e muitas delas, enfrentando inimigos do mesmo calibre, como Mothra —uma mariposa gigante— e King Ghidorah —um dragão de três cabeças).

Sim, aquela destruição camp e divertida de cidades em miniatura, tão típica de inúmeros filmes e séries japonesas (de Spectreman e Ultraman, passando por Jaspion e Changeman, até chegar no americano Power Rangers). Um gênero conhecido como tokusatsu lá no Japão. E que, numa sub-categoria, tem os kaijus (como são conhecidos esses monstros gigantescos).

Depois de incontáveis sequências nipônicas de Gojira, e uma versão americana horrenda cometida pelo diretor Roland Emmerich em 1998, a Warner Bros. propõe uma nova abordagem, agora sob a batuta de Gareth Edwards —responsável pelo cult movie Monsters.

O que prometia ser um filme tenso e impressionante, por conta dos trailers divulgados, na verdade é um exercício de frustração.

A começar pelo elenco coadjuvante de peso —Juliette Binoche (numa participação piscou-perdeu), Bryan Cranston, Ken Watanabe, Sally Hawkins e David Strathairn— que não consegue garantir a credibilidade necessária.

E Aaron Taylor-Johnson, que já se mostrou competente como o ridículo protagonista da cinessérie Kick-Ass, faz o que pode como o herói da vez.

Mas o problema está justamente no diretor, que não consegue definir um foco —ou melhor ainda, seu ponto de vista. Mesmo tendo Ford (Taylor-Johnson) como o referencial humano, falta peso e envolvimento para que o espectador queira acompanhar sua jornada. Repetindo: o problema não está no intérprete, e sim na visão difusa do diretor.

Sim, Ford é traumatizado pela perda da mãe na infância, num acidente diretamente relacionado com uma criatura gigantesca. Sim, ele torna-se um militar quando adulto, o que lhe garante as condições para lidar com uma catástrofe da escala desta história. Mas não, nós simplesmente não nos importamos com ele.

Gareth Edwards pega emprestada a atmosfera de suspense de Spielberg em Tubarão: o monstro é constantemente citado, mas é pouco visto durante boa parte da narrativa. A diferença é que Spielberg conduziu com maestria essa manipulação da plateia, ainda mais por se tratar de um vilão ainda desconhecido da cultura popular. Em Tubarão, acompanhava-se a criação desse mito.

Acima, Gareth (de vermelho) precisa comer muito feijão. Abaixo, Steven faz história.

Aqui, temos um problema básico: o espectador conhece Godzilla, e quer ver Godzilla em cena. Simples assim. E, infelizmente, ocorre o inverso: o primeiro relance do personagem-título acontece por volta de uma hora de projeção, e sua real aparição, em todo o seu esplendor, chega batendo nos 90 minutos já percorridos. Quase como se fosse um filme de arte, onde o protagonista está nas entrelinhas. E isto não é viável numa franquia tão conhecida e expressiva como esta. Não dá para fazer um filme de Godzilla sem Godzilla.

E pior: quanto temos a primeira batalha grandiosa de Godzilla contra outra criatura (conhecida como MUTO), a câmera recebe elegantemente uma tela preta no início da luta. E o público NÃO ACOMPANHA O DESENROLAR DA AÇÃO. Decisão completamente equivocada, e que se repete mais uma vez.

Ainda tenta-se mostrar o propósito do monstrengo no cenário atual, já que sua criação nos anos 50 foi diretamente influenciada pelo horror nuclear que marcou o Japão na 2ª Guerra Mundial. Desta vez, é feita uma alusão ao desastre da usina de Fukushima. Mas essas metáforas mostram-se frágeis em comparação ao início da série, pois o contexto histórico daquela época era muito mais relevante.

Se for pensar em ousadias narrativas, o rival Cloverfield acertou em cheio. Este sim é um concorrente que se propôs a reinventar o gênero, e tornou-se memorável. E para não ficar muito distante: Círculo de Fogo, de Guillermo del Toro, continua como a melhor homenagem-kaiju já feita pelo Ocidente. Mesmo com o amontoado de clichês proposto por del Toro, ele consegue chegar à essência de sua busca: o filme pipoca por excelência, e com batalhas épicas que deixam o espectador com um sorriso no rosto.

As batalhas em Godzilla não empolgam, são apenas corretas. Faltou o sentimento de torcida, de engajamento, tão necessário nestes momentos. E a comparação com os dois “filmes de monstro” já citados apenas confirma: este Godzilla ficou devendo.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s