L.O.A.S. – Sob a Pele (Under the Skin)

Senhoras e senhores, já temos o filme do ano. Sob a Pele, terceiro longa do diretor Jonathan Glazer, é uma experiência sensorial como há muito não se via nos cinemas.

E vai dividir opiniões. Glazer opta pelo que se pode chamar de ousadia atualmente: filmar ações sem explicações prévias ou posteriores, deixando para o cinespectador o trabalho de decifrar seus signos, significados e significantes. E faz tudo isso sem pressa e sem exageros —cada cena carregada de estilo próprio, cada efeito sonoro, cada uso da trilha incidental, tudo está lá para contar a história. Nada é aleatório, supérfluo ou gratuito. A diferença é que o diretor conta com o cinespectador como cúmplice nessa experiência. Alguns vão se deleitar, outros optarão por enxergar apenas o vazio. Esses últimos certamente vão se enfastiar. Para os primeiros, resta a missão de buscar algum sentido e completar a narrativa.

O enigma começa logo na primeira cena, que evoca uma espécie de engenharia orgânica, a criação de um olho ou o pouso de um disco voador, um branco cegante, e algo que se assemelha a um download e processamento de linguagem em voz feminina diretamente no córtex cerebral. Parece confuso e é. Glazer deixa claro desde o início que não está disposto a fazer concessões.

Corta para um motoqueiro cruzando as gélidas e vazias estradas escocesas, uma imagem recorrente que vai adquirindo conotação conforme o filme evolui. Ele para ao lado de um barranco, desce da moto e resgata um corpo feminino.

Na cena seguinte, num fundo branco infinito, o corpo está estendido no chão, inerte, enquanto Scarlett Johansson, completamente nua, começa a despi-lo. Uma lágrima escorre do rosto da mulher deitada, agora nua.

O roteiro alterna cenas estranhas como essas e cenas contemplativas como a seguinte, que mostra Scarlett já vestida com as roupas retiradas do cadáver, andando pela cidade, observando, avaliando e eventualmente abordando a população masculina de dentro de sua van. Ficamos sem saber seu nome, assim como a da maioria dos personagens.

Sem aviso e lentamente, começa a se descortinar a trama: apreende-se que a personagem não é humana e vive à espreita, observando; está interessada apenas em homens sem vínculos (afetivos, familiares, profissionais); a abordagem é padronizada: finge simpatia, pede informações; se o interesse do momento falha no interrogatório, ela perde a atenção instantaneamente (junto com qualquer traço de expressão) e sai de cena o mais rápido possível; quando encontra alguém que se encaixa no perfil, oferece carona, faz e pede elogios ao físico dele e seu; o convida até sua casa, seduzindo de forma sutil; quem aceita, é brindado por um striptease silencioso e hipnótico, indicando o caminho por um ambiente negro como alcatrão, um convite irrecusável e sem palavras —e então, nesse cenário esquisito com clima de Black Lodge (só falta o anão dançando e falando ao contrário para você se sentir em Twin Peaks), percebemos que o convidado é de fato vítima, ao afundar impotente num líquido negro enquanto Scarlett Johansson continua andando graciosa na superfície à sua frente.

Essa rotina é repetida algumas vezes, com precisão quase cirúrgica. E a cada nova iteração, um detalhe a mais é revelado —incluindo a função do(s) motoqueiro(s). Mas as ligações entre os personagens, de onde vieram, quais são seus objetivos e até suas personalidades nunca são expostas claramente. O único detalhe que emerge é que estamos diante de uma caçada, e Scarlett é a predadora. Se ela também é mandante ou consumidora, são outros quinhentos.

Mesmo após essa constatação e diante de todo o clima de suspense, Sob a Pele permanece chocando sem usar de violência gráfica. Tudo se resume à atmosfera voyeurística e ao esforço mental do cinespectador para compreender o que vê. A violência, quando aparece, é puramente psicológica (à exceção de duas cenas —quando é revelado o destino dos homens que afundam na armadilha negra e a impactante sequência final): é como a sensação de aflição, angústia e impotência perante um afogamento. Num dado momento, um bebê entre 1 ou 2 anos fica órfão e é de dilacerar o coração de quem assiste, mas a função na história é apenas a de sublinhar a falta de humanidade da protagonista e do motoqueiro (ou a desconexão com qualquer traço de moralidade ou empatia dessas criaturas sob pele humana).

A estrutura circular só é quebrada em definitivo quando a caçadora tem um encontro com outra figura fora do padrão. Um homem isolado da humanidade por sua aparência física, com o rosto repleto de tumores (não é maquiagem —o ator Adam Pearson é portador de uma doença rara chamada neurofibromatose). Algo desperta no íntimo da predadora, e seu olhar se volta pra dentro. A deformação física da vítima em potencial, em contraste com a perfeição do corpo de Scarlett Johansson, funciona como um espelho às avessas da deformidade de caráter. Ali, há um signo distorcido de igualdade. E, ao mesmo tempo que esse evento transformador dá início a uma busca existencial, também inverte o papel de caçadora e caça, embora não do jeito que se possa imaginar de imediato.

Sob a Pele continua arrebatador até o último suspiro, seja por seu desenvolvimento corajoso, pela sutileza das rimas visuais que dão as caras durante todo o filme e que deixam pistas importantes para o entendimento da história (fique de olho nas mais relevantes: a lágrima do início que reaparece no fim, carregada de significado; o vermelho brilhante do aquecedor em contraponto ao vermelho brilhante da linha de chegada do rio de vísceras), ou pelo interessante contraponto que faz à Ela, de Spike Jonze —outro grande filme de 2014, que divide a mesma atriz encarnando aspectos diferentes do ideal de mulher: no mais solar, Scarlett Johansson é pura personalidade, atuando apenas com a voz; no mais sombrio, ela se apoia quase que totalmente na expressão corporal para encarnar o desejo físico. Em ambos, temos grandes atuações que provam sua versatilidade.

Para quem já assistiu Sob a Pele e está maquinando teorias, a que construí em conjunto com a perspicaz Sra. espinafrando surgirá repleta de spoilers aí embaixo.

[spoiler show =”Clique para revelar a teoria” hide = “Clique para esconder a teoria”]

A personagem de Scarlett Johansson, os motoqueiros e o corpo feminino resgatado no início são todos alienígenas da mesma raça, que se disfarçam sob pele humana. A mulher encontrada no barranco foi a caçadora original, que assim como Scarlett, se desviou de sua função nalgum momento e acabou morrendo por isso —a lágrima que escorre é o que liga as duas, demonstrando que ambas superaram suas programações e descobriram a emoção, assim como ambas sabem que não podem escapar aos seus destinos. A cena inicial representa a construção orgânica da caçadora substituta. Os motoqueiros, que a princípio parecem auxiliares da caçadora, recolhendo vestígios das vítimas, na verdade são os mandantes/consumidores: as vítimas não servem como alimento, mas como fornecedores das peles que os alienígenas usam para se disfarçar de humanos —daí a caçadora estar em busca apenas de homens sozinhos (para não levantar suspeitas após o sumiço), a conservação dos corpos no líquido negro (que por tabela ajuda a amaciar a pele, sem perda de elasticidade) e a cena em que o “conteúdo” é sugado para fora e descartado naquela espécie de fornalha (deixando a pele intacta). A cena em que o motoqueiro principal fica frente à frente com Scarlett na casa pode representar a transmissão de ordens deste para ela. O rapaz desfigurado pelos tumores é rejeitado pela armadilha porque é um péssimo disfarce para outro motoqueiro sem pele: chama muita atenção. Isso desencadeia os questionamentos existencialistas da 2ª caçadora, que sabe instintivamente que será caçada pelos motoqueiros, pois perdeu sua utilidade, além de ter virado um risco para desmascarar a invasão. Ela vê no sujeito desfigurado um igual, uma pessoa que nunca foi tocada pelo sexo oposto, que tenta não sentir e que segue uma existência vazia e solitária, focada num padrão de sobrevivência. A busca da ex-caçadora por “ajuda” para sua autodescoberta tem como objetivo entender o que é uma relação afetiva. Como não tem referenciais, ela procura analogias para entender as situações: daí o medo/receio que surge quando desce as escadas escuras do castelo em ruínas com o “amante” à sua frente (mesma situação da armadilha de “alcatrão” —ela tem receio de afundar) ou frente ao aquecedor no quarto, cujo brilho lembra o incinerador da armadilha. No fim, quando Scarlett adquire toda a carga emocional de um terráqueo, Glazer demonstra através da repetição do tema incidental do quarto escuro na cena do estupro que não basta ser humano para ter humanidade, e reforça que os piores predadores estão escondidos à vista, mesmo em figuras aparentemente inocentes como uma mulher estonteante ou um guarda florestal.[/spoiler]

 

 

2 comments

  1. Nossa! Parece um daqueles filmes que se tornam cult, como Odisseia no Espaço, e lembrando na minha época de jovem, os filmes enigmáticos como os de Ingmar Bergmam, que a gente ficava procurando interpretar o significado psicológico. Hoje, entendo como é difícil viver constantemente descobrindo que o mundo não é o ideal que desejamos, e que somos nós, as criaturas que sofremos ou causamos o sofrimento e a decepção do outro. O homem no fundo e no geral é muito pouco sentimental, no sentido amoroso do termo.
    Não é um texto prolixo, mas longo, talvez para completar o inusitado que as imagens devem provocar.

  2. Eu me achei muito burro por ter terminado o filme e não ter entendido o significado dele. Nossa, é um filme muito difícil. Eu gostei da teoria, faz muito sentido.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s