espinafrando a estreia: No Limite do Amanhã

Viva. Morra. Repita. O eficiente e charmoso slogan de No Limite do Amanhã não poderia ser mais preciso. O novo filme do diretor Doug Liman e do astro Tom Cruise, que estreia dia 29 de maio, é um daqueles deliciosos paradoxos do tipo Feitiço do Tempo, em que o protagonista revive o mesmo dia num looping quase infinito.

Se a estrutura não é inédita, os toques novidadeiros aparecem na ambientação militar sci-fi.

Num futuro próximo, logo ali na esquina, um meteorito atinge a Terra, trazendo na bagagem uma raça alienígena que rapidamente começa a conquistar nosso planeta. Ficamos sabendo disso e de outros detalhes através de uma sucessão de flashes da TV ao redor do mundo —recurso batido desde Cidadão Kane, mas sempre eficiente.

A trama gira em torno do ex-publicitário e major William Cage (Tom Cruise), relações públicas do exército americano, enviado ao front à contragosto e sem preparo. Em questão de minutos, Cage sucumbe na violenta batalha contra os invasores. Algo acontece e, ao invés de termos um curta-metragem trágico, vemos o major Cage acordar no dia anterior ao conflito.

Enquanto tenta entender o que está acontecendo, o protagonista tem a chance de refazer seus passos a cada morte, numa tentativa ininterrupta de alterar seu destino.

O 2º evento catalisador para fazer a história avançar acontece quando o major encontra Rita Vrataski (Emily Blunt) num de seus ciclos de viver, morrer e repetir. Apelidada com um trocadilho inteligente e intraduzível com Nascido para Matar do Kubrick (Full Metal Bitch, substituindo o Jacket do título original, que em No Limite do Amanhã serve para designar o exoesqueleto desenvolvido pelas Forças Especiais), Rita é a máquina de matar perfeita, uma guerreira que lidera as tropas em vitórias improváveis contra os aliens. Mais do que isso, Rita parece entender o que está acontecendo com Cage, e pede a ele que a procure quando acordar novamente na véspera da batalha.

A partir de uma explicação satisfatória e condizente com a lógica interna do filme, a oficial Vrataski inicia o treinamento de Cage, aprimorando suas habilidades como combatente a cada repetição da rotina e planejando a estratégia para a vitória definitiva contra os invasores.

Neste ponto, No Limite do Amanhã passa a trabalhar com conceitos semelhante aos explorados em outras duas obras de ficção científica recentes que abordam a percepção temporal: o filme Contra o Tempo e a HQ O que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo?. Supera o primeiro, ao respeitar as regras impostas por sua trama, e se iguala à segunda, no que diz respeito à evolução das habilidades do protagonista (ainda que o ótimo gibi tome um caminho divergente, mais elegante e com menos ação).

Tom Cruise, em seu ocaso na carreira de herói de ação, entrega uma performance sólida. Seu carisma já está mais do que comprovado e aprovado, e seu físico ainda consegue suportar com garbo as exigências do gênero, ainda que as rugas denunciem sua experiência e possam comprometer seu futuro como galã. O que pode surpreender os críticos de sua capacidade de atuação é a curva de crescimento de seu personagem: Cruise convence tanto como o publicitário-burocrata desprezível do início, quanto como o líder calejado que chama a responsabilidade para si após as centenas de batalhas e derrotas que enfrentou.

Já a improvável Emily Blunt e seu sotaque britânico, lembrada mais por seus pequenos papéis em dramas e comédias românticas (como a assistente de O Diabo Veste Prada, por exemplo), aparece exuberante e intimidante como soldada badass, encontrando um novo nicho para sua carreira.

O bom desempenho do casal de atores principais e do elenco de apoio (destaque para o impagável Bill Paxton e seu sargento Farrell, lembrando o bom e velho Chet de Mulher Nota 1000), a boa direção das cenas de ação (que não só empolgam e criam tensão, mas principalmente permitem entender o que se passa na tela), as doses certeiras e comedidas de humor, o excelente design de produção (há tempos o cinema sci-fi não trazia criaturas com visual tão ameaçador e diferente para as telas) e o 3D empolgante são suficientes para criar uma ótima matinê, ainda que o roteiro se perca no início e no epílogo (absolutamente dispensável, aliás) —dois momentos com erros crassos de motivação e que rasgam qualquer possibilidade de coesão e coerência narrativa. Ainda assim, o meio é tão bom no que se propõe e traz uma escala tão grandiosa que compensa com sobras esses deslizes. A impressão final é mais do que positiva e No Limite do Amanhã supera as expectativas (que eram baixas, diga-se).

 

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