Dica Duca – Dias de Luta: O Rock e o Brasil dos Anos 80

Além de ser uma das melhores canções do Ira!, Dias de Luta também dá nome ao já clássico livro-reportagem de Ricardo Alexandre, lançado originalmente em 2002 e com reedição caprichada e revisada em 2012.

porque é bom

Com prosa agradável, Ricardo destrincha com rigor jornalístico quase tudo o que envolve o subtítulo do livro: o rock e o Brasil dos anos 80.

E essa é a maior qualidade do livro: por mais que as curiosidades de bastidores, os causos e a narrativa da formação e do ocaso das bandas sejam suculentos —e são!, é o contexto histórico em que os movimentos são colocados que transformam o que poderia ser um mero almanaque numa obra de peso e relevância.

Fruto de 6 anos de pesquisa, complementados por entrevistas com várias personalidades da época (nas palavras de Ricardo Alexandre: “cerca de 100 entrevistados, calculo que umas 150 entrevistas, que podiam ir de vinte minutos a duas ou três horas”), Dias de Luta aborda o pré, o pós e o durante de um período de mudanças culturais e estéticas, o primeiro em que o jovem brasileiro foi encarado pelo mercado como público-alvo formador de opinião e com poder de compra.

Estão lá o fim dos anos 70 —com o rescaldo dos medalhões da MPB; o período de transição —com jovens recebendo as influências do punk+pós-punk+new wave do exterior (com o típico atraso do mundo analógico) e tentando reproduzir a sonoridade por aqui; a contestação do art-rock paulista na derrocada da ditadura; iniciativas sem pretensão que caem no gosto popular e projetos super pretensiosos que naufragam no mercado (com e sem qualidade); a explosão da cena no RJ e a construção insistente de uma cena no DF; as panelas punks e jornalísticas em SP; a zoeira sem limites do RS; o ocaso de Raul Seixas, eterno marginal; as Diretas que não vieram; o Big Business, a Economia e seus reflexos no nascimento do fanatismo embalado por milhares de Revoluções Por Minuto; os excessos e a implosão de uma indústria insustentável em contraste com o surgimento de via(s) alternativa(s). Enfim, História de uma década frequentemente subestimada —política, sociológica e artisticamente— regada a sexo, ciúmes, dinheiro, drogas, doenças, alegrias, tristezas, brigas, negócios, intrigas, sonhos, idealismo e arte.

porque é duca

Enquanto Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar (último livro de Ricardo Alexandre, que aborda o período musical imediatamente posterior) está para a música e para o jornalismo assim como Febre de Bola está para o futebol e a literatura devido ao caráter mais ou menos autobiográfico, Dias de Luta tem a vantagem do distanciamento: gera um retrato mais analítico e desenha um panorama histórico isento de juízo de valor, não só capaz de elucidar uma geração que nada tinha de perdida, como também de ajudar a entender um país e a cultura do Ragnarok entre establishment e rebeldia —a ruptura e a assimilação num ciclo sem fim.

Dias de Luta deveria ser proclamado material didático indispensável. No mínimo, seria bem mais divertido aprender história nacional na escola.

Bônus

Antes, durante ou depois de ler o(s) livro(s), não deixe de conferir os podcasts de Ricardo e convidados, verdadeiro complemento à(s) narrativa(s).

 

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