L.O.A.S. – as histórias em quadrinhos de Terry Moore

Uma constante nesse sítio, quando se fala do mercado de histórias em quadrinhos, é lembrar que nunca tivemos tanta fartura de publicações nacionais para todos os gostos (comparando com as décadas de 80 e 90) ao mesmo tempo em que ainda possuímos um grande gap em relação ao que se publica no exterior —principalmente do material europeu, ainda quase alienígena por estas terras tropicais, mas também da ala “alternativa” americana: HQs que fogem do binômio super-heroístico Marvel/DC.

Um desses autores quase negligenciados é o excelente Terry Moore.

Terry é autor com A maiúsculo: desenha e roteiriza com igual destreza, além de publicar seu próprio material por seu selo Abstract Studio. É o faça-você-mesmo levado às últimas consequências.

É QUASE negligenciado porque sua 1ª grande série autoral, Strangers in Paradise, já saiu em parte e de forma errática no Brasil —Estranhos no Paraíso já passou pelas editoras Abril, Via Lettera, Pandora Books e agora está nas mãos da HQM, cujo último volume (Santuário, lançado no 1º semestre de 2013, mais de 6 anos após o lançamento de Tempos de Colégio, o arco anterior) corresponde ao 7 de 19.

É pouco. Principalmente porque seus dois outros grandes trabalhos, Echo e Rachel Rising, permanecem inéditos em solo verde e amarelo.

Strangers in Paradise é como um romance escrito e desenhado por Jane Austen, se Jane Austen fosse um careca americano com muita razão e sensibilidade e falasse sobre o cotidiano de uma galera jovem, insegura e absurdamente real, durante a década de 1990 —nada de aristocracia rural pré-revolução industrial, pois. E se, ao invés dum livro em prosa, romance fosse uma história em quadrinhos com 90 edições, cheia de idas e vindas e flashbacks e momentos ternos e momentos horríveis e que abarcasse praticamente uma (várias) vida(s) —da juventude à meia-idade. O primeiro arco de histórias de SiP ganhou o prêmio Eisner de Melhor Série em 1995.

Echo é um sci-fi de conspiração governamental com super-heroína fugitiva, que foca principalmente nas reações e sentimentos de seus protagonistas, com a ação ficando em 2º plano, mas sem deixar a intriga de lado. São 30 edições de tirar o fôlego (e fazer corar de vergonha a maioria das publicações do mainstream). Echo chegou a ter seus direitos comprados por Lloyd Levin para virar um filme, mas a produção não levantou voo e os direitos retornaram a Terry Moore. Não sei dizer se é uma pena para o cinema e os cinéfilos em geral ou se é um alívio pela história não ter sido estragada em Hollywood.

Rachel Rising é mais ou menos um encontro de As Bruxas de Salem com Ghost World, se Ghost World fosse mais como a cena musical de Scott Pilgrim e menos sobre garotas pré-adolescentes neuróticas. Ah, e ainda tem o diabo e uma menina psicopata que daria arrepios em Hannibal Lecter. Rachel Rising continua sendo publicado a cada 6 semanas: no momento em que esse post foi escrito, a 27 é a edição mais recente. Foi indicada ao prêmio Harvey de Melhor Série Nova em 2012 e atualmente concorre ao prêmio da British Fantasy Society na categoria Melhor HQ/Graphic Novel.

Em comum, as 3 séries têm:

  • O traço suave e levemente realista (em preto e branco) de Terry, com suas mulheres de rostos expressivos e corpos deliciosamente imperfeitos —quase chega a lembrar o estilo de Katsuhiro Otomo, mas com expressões faciais que puxam mais pro quadrinho europeu do que pro mangá;
  • Protagonistas femininas com caráter bem definido e demasiado humanas;
  • Diálogos mundanos muito bem escritos, que conseguem mesclar humor, algum comentário social e uma infinidade de sentimentos. Quando se trata de Terry Moore, a unidimensionalidade fica de fora;
  • O foco no desenvolvimento de personalidades.

Um dos melhores jeitos de se contar uma boa história é construir uma relação com o leitor, transformando personagens em pessoas palpáveis, de modo que você passe a se importar com seus destinos —nisso, Terry Moore é mestre. A ação acontece, não se engane, mas simplesmente não é o foco absoluto. O efeito imediato é que, em pouco tempo, o leitor se pega apaixonado por protagonistas e coadjuvantes, como se fossem velhos amigos ou conhecidos de longa data.

Portanto, se o mercado nacional ainda não acordou, meu conselho é: corrija essa injustiça e vá atrás das edições digitais no ComiXology.

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