Mudinhas de Espinafre [15.09.14] – Restrepo, Beck e U2

Mudinhas de Espinafre são pílulas pop, comentários (nem sempre) curtos e sem profundidade sobre coisas bacanas que você deveria ver, ouvir, ler. Ou não.

Filmes

Restrepo

Documentário que levou o prêmio de 2010 do Grand Jury em Sundance e indicado ao Oscar do ano seguinte (perdeu para Inside Job, sobre a crise financeira global de 2008), Restrepo é um retrato cru de emoções brutas de garotos imaturos e suas experiências durante a incursão do exército americano no Afeganistão pós-11 de setembro.

Restrepo mal resvala no contexto histórico. Ainda assim, é impressionante como registro em HD da falta de sentido que há numa guerra e do estrago que faz na psique de moleques com pouco tutano e muita testosterona. Não há heróis e vilões, nem entre americanos, nem entre afegãos. Mas há muitas vítimas. Suscita no espectador a tríade sentimental de pena, raiva e tristeza, não necessariamente nesta ordem. Talvez, a principal conclusão seja que a instituição chamada exército não passa de uma fábrica de psicopatas em potencial.

Música

Sea Change – Beck

Sea Change - Beck

Após vencer um preconceito arraigado e histórico contra o “LoserBeck (graças à trilha de Scott Pilgrim —minha porta de entrada para o mundo sonoro do produtor multi-instrumentista— e ao incensado Odelay, que realmente é um disco muito acima da média, um passeio sempre bom por gêneros como rock clássico, alt-rock, funk e eletrônico, às vezes tudo misturado de uma vez), posso dizer que Sea Change, o álbum intimista de Beck lançado no distante 2002, é uma pequena pérola repleta de baladas tristonhas que remetem a imagens mentais como um oceano de tranquilidade ou uma cabana isolada na mata de uma montanha.

Beck é tão bom compositor quanto executor, e Sea Change é ótima pedida para momentos reflexivos ou para satisfazer a necessidade de calmaria.

Morning Phase – Beck

Morning Phase - Beck

Por falar em calmaria, o último álbum de Beck é sequência direta de Sea Change, mesmo que separados por 12 anos. A pegada baladeira folk continua, mas trocando a chave para um som solar e tranquilo como o alvorecer sobre o orvalho na grama.

Sensibilidade à flor da pele com toques beatlenianos (fase psicodélica) é a síntese de Morning Phase.

Esta dupla de discos, aliás, é tão díspare em relação ao restante de sua discografia que acentua o rótulo merecido de versátil para o cantor/compositor/músico/produtor.

Songs of Innocence – U2

Songs of Innocence - U2

Na semana que passou, tivemos a comentada apresentação dos novos iPhones e do Apple Watch, embora a verdadeira surpresa do evento da Apple tenha sido o lançamento imediato, sem aviso prévio, exclusivo para os donos de contas no iTunes e gratuito do novo álbum do U2.

Apesar da banda receber uma bolada da empresa de Cupertino, a percepção do público é que o disco custou/custa zero dinheiros. Para a última megabanda mundial pode parecer sacrifício nenhum, mas certamente cria um paradigma que desvaloriza ainda mais o produto música —num cenário em que a pirataria digital é praticamente uma instituição, agora até o lançamento oficial é grátis.

Se a estratégia é cheia de controvérsia em suas prováveis consequências nefastas para o mercado e, principalmente, para os artistas menos populares e/ou iniciantes, o que mais me surpreendeu foi a reação praticamente unânime do público nesse pequenino bairro interiorano chamado internet: o total e irrestrito repúdio, somado à condenação à morte por macacos (a qual pode ser considerada o pior tipo de condenação à morte, como qualquer um que assistiu à Toy Story 3 pode confirmar —ver abaixo, a partir dos 2:05).

Parece que o ódio ao establishment, personificado no amálgama entre a empresa de eletrônicos hypada e a megalomania de Bono & Cia., floresceu em sua forma mais destilada, antes de qualquer um sequer OUVIR o disco para poder criticá-lo.

É difícil entender a grita contra algo que estão dando de graça e que ouve quem quer.

Deixando a polêmica de lado, é impossível avaliar Songs of Innocence sem considerar seu preço para o consumidor. Sendo assim, e admitindo que “de graça até injeção na testa” não passa de bravata (como a dezena de Singles gratuitos da Semana deploráveis oferecidos pelo próprio iTunes podem comprovar), o novo disco do U2 passa longe dos extremos. Não é obra-prima, tampouco o poço de mediocridade que o Twitter faz crer. Mais ou menos como a carreira da banda: é dona de poderosos hits, mas nenhum álbum passa incólume pelo crivo da excelência —o que mais se aproxima é The Joshua Tree. E, por favor, esqueça também a balela marqueteira de “registro mais pessoal de Bono” —não dá pra cair nessa depois da egomania de One.

Há um punhado de canções genéricas, com alguns hits em potencial espalhados aqui e ali. A saber:

  • The Miracle (Of Joey Ramone) —guitarradas de peso, coro perfeito pra arenas, ode a um cara que realmente merece.
  • Every Break Wave —linha de baixo que remete aos melhores trabalhos de Adam Clayton, balada bonita e refrão típico. Não é um primor, mas é bacana.
  • California (There is no End to Love) —vale a menção pela citação aos Beach Boys.
  • Song for Someone —aqui sim, temos uma balada ao violão que é perfeita para dançar colado numa festa do final da década de 1980. Sim, isso foi um elogio.
  • Iris (Hold Me Close)U2 típico. Poderia estar em qualquer disco da banda. O que não é, necessariamente, um elogio.
  • Volcano —mais uma em que o baixo é destaque, ao lado do riff edgeniano. Poderia ser um single de sucesso, fácil.
  • Raised by Wolfs —hit certo, com carinha de urgência.
  • Cedarwood Road —bom peso na introdução, derrapa já na primeira estrofe. Preguiça.
  • Sleep Like a Baby TonightU2 querendo soar estranho e enigmático, abusando do sintetizador. A mais ousada musicalmente, embora possa parecer um Arcade Fire de segunda nalguns momentos. Desperta amor e ódio em igual medida, a depender da boa vontade do ouvinte.
  • This Is Where You Can Reach Me Now —ignorando o refrão brega e óbvio, poderia ser um ponto alto. Uma pena, já que foi dedicada ao enorme Joe Strummer.
  • The Troubles —a balada bonitona fecha o álbum gratuito com dignidade.

Em resumo: compra certa que agradaria o fã, compra justa se fosse à preço camarada para o não fã. Mas como o preço é zero, é um presente que quem aprecia o gênero não tem razão de reclamar. E não dá pra negar duas coisas: que o álbum é bastante radiofônico (a despeito do rádio não ter mais força ou relevância) e que não dá pra deixar de ter simpatia por um disco que homenageia tanta gente boa.

 

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