talk show, com Terry Moore – Parte 2

Finalmente, temos aqui a parte final da entrevista com Terry Moore. Na 1ª parte, falamos sobre suas séries autorais, seu processo criativo e a conspiração da família Moore para tomar conta do mundo através dos quadrinhos (ou algo assim). Agora, é hora de ouvir o que Terry tem a dizer sobre o mercado de HQs, suas influências e seus conselhos para quem quer trabalhar profissionalmente com criação. Enjoy!

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talk show, com Terry Moore

@espinafrando: Terry, quais são suas maiores referências/influências nas artes, literatura e histórias em quadrinhos? O que te inspira?

Terry Moore: Amo a tudo e todos na arte e na literatura. Sou inspirado tanto por novelistas clássicos e músicos do século XIX quanto pelos grandes contemporâneos. Ou seja, na verdade é por todo mundo. Qualquer um que encontre aquele lugar especial que as pessoas criativas alcançam quando devotam suas vidas e mentes ao seu trabalho.

@e: O que você está lendo?

TM: Um monte de coisas diferentes. Neste mês, foram Mind MGMT, The Creep, Green River Killer, Einstein’s Universe, e The History of Fender Amps.

@e: Como você vê o mercado de quadrinhos atualmente?

TM: Vejo os quadrinhos como algo importante, mas meio que deixado de lado. Eles continuam a ser uma fonte de histórias originais, vindas de alguns dos melhores escritores e artistas na ativa. Nenhuma outra indústria [no ramo das artes e entretenimento] oferece aos seus talentos as oportunidades únicas que se podem encontrar nos quadrinhos: da renda constante às rápidas reviravoltas no trabalho, passando pela falante base de fãs com quem se pode interagir de verdade. Muitos outros trabalhos de criação te deixam isolado. Os fãs de HQ vêm mantendo essa indústria viva e inspirada. Pra mim, é incrível que não haja mais pessoas ligadas em quadrinhos e no que eles têm a oferecer.

@e: E quadrinhos digitais? Você curte?

TM: Sim. Eu não ligo pros motion comics [nota do editor: espécie de quadrinhos digitais “animados”] porque trabalhei em televisão e publicidade nos 80 e 90 e se usava a mesma coisa pra promover ideias pra comerciais. Era patético e ridículo na época e continua algo patético e ridículo. Ou seja, acho que motion comics são embaraçosos. Mas ler HQs em qualquer lugar no seu iQualquerCoisa é ótimo. Até a proporção da tela é igual.

Vejo livros digitais como algo conveniente e descartável. Hoje em dia, os livros de verdade que nós compramos são os que amamos e que queremos em nossas estantes para ler e reler e poder vê-los em tamanho real e em papel de qualidade. É como a diferença entre ter uma imagem em jpeg de um carro ou ter um carro de verdade na sua garagem. São duas coisas diferentes, ambas úteis.

@e: O que você acha dessa onda de trabalhos autorais / autopublicação / financiamento coletivo, que parece ficar mais e mais popular a cada dia?

TM: Não sei se vai durar, mas certamente foi um impulso pra muita gente. Eu amo que os fãs estejam dispostos a apoiar criadores e criações interessantes, a partir do zero. Essa é a beleza da coisa. De novo, são os fãs que são fantásticos, que fornecem o poder para as ideias.

@e: Quais são as diferenças no processo criativo entre um trabalho por contrato com uma grande editora como a Marvel e um projeto autoral?

TM: Se você trabalha pra Marvel, provavelmente você está trabalhando num personagem icônico. É como atuar numa peça de Shakespeare… aplicam-se certas regras, você está lá pra trazer um ar novo a um papel clássico. É um trabalho honroso porque você está ajudando a criar a mitologia moderna. Talvez sua contribuição seja lembrada como a que melhor representa e reflete as pessoas desta época, como nós somos e o que precisamos em nossos heróis hoje.

Um projeto autoral é um Novo Mundo. Você tem uma ideia nova, um personagem novo, uma nova forma de contar uma história, e você quer que o mundo veja isso. Então, você tem que ser a pessoa que vai fazer isso acontecer. Daí, quando fica pronto, você tem que acalentar o livro ao longo do caminho e tentar fazer com que ele cresça no mundo. Criadores não querem fazer uma história original e dar as costas pra ela depois de publicada. É o seu bebê. Você tem que mostrar que é seu publicamente, falar sobre ele e apresentá-lo ao mundo.

Trabalhar para o mainstream e trabalhar num projeto autoral são coisas próximas mas bastante diferentes. E sua vida será diferente, dependendo de qual escolher.

@e: Você conhece o trabalho de algum quadrinista brasileiro (eu sei que você conhece ao menos o Fábio Moon, que desenhou a contracapa de Rachel Rising nº1)? Em caso positivo, quais são suas impressões sobre o trabalho deles?

TM: Eu conheço e admiro Fábio Moon e Gabriel Bá há muitos anos. Acho que conheci o Fábio na Comic Con de San Diego anos atrás, quando parei ele e falei: “você se parece com o meu herói, Ayrton Senna!” Ele achou aquilo engraçado. Somos colegas desde então. Eu tinha uma grande pilha de gibis do Senna que trouxe da Europa uma vez, e admirava quem quer que fosse que estava desenhando esses cartuns. Na verdade, a maioria dos brasileiros que conheço eu encontrei em convenções na Europa, particularmente na Itália e França, onde os artistas brasileiros são respeitados e incluídos em todas as exposições que já vi.

@e: Que tipo de música você gosta? Alguns autores dizem que a música tem um papel importante durante a escrita, para estabelecer uma atmosfera ou clima específicos que eles estejam tentando emular. Isso se aplica a você?

TM: Sim. Sou músico, então música é o ponto-chave para minha vida diária e felicidade em geral. Escuto um grande espectro de gêneros agora, porque ainda gosto de cada fase musical pela qual já passei… e eu já passei por um monte delas. Gosto de tudo, de Chopin ao jazz, ao rock, ao metal. A única coisa que não gosto são as divas americanas, ou boy bands e dançarinos nerds tipo Justin Bieber. Eu curto músicos de verdade, e qualquer um com algo novo a dizer. Se for um japonês compositor de trilhas para o cinema, ou um coreano guitarrista de jazz ou um blueseiro de Nova Orleans ou o Phish… ótimo. Tudo vale a pena pra mim.

[nota do editor: Phish é uma banda de rock de Vermont]

@e: Que tipo de conselhos você dá pra todos os escritores e artistas que estão por aí, tentando encontrar seu espaço no mercado profissional?

TM: Ame o processo de criação ou nada vai dar certo. Você tem que amar desenhar todos os dias, porque é a sua saída, é o que te faz único, e aquilo que você descobrir enquanto trabalha nisso te fará muito feliz. Essa felicidade e aquelas descobertas irão aparecer no seu trabalho e é isso que atrai as pessoas. Pense nisso… há uma tonelada de gente que consegue desenhar e escrever e muitas delas são muito melhores nisso do que você. MAS, elas não têm as suas ideias. Elas não têm a sua mente. Elas não sentaram ao lado de uma prancheta ou de um teclado contigo e descobriram aquela coisa única que você encontrou apenas porque você trabalhou e trabalhou para encontrá-la. Ou seja, técnica é algo que tem o seu valor, mas o que fará de você uma estrela é o que está na sua cabeça. A técnica existe para tornar suas ideias reais. Pense nas bandas mais populares do mundo: provavelmente eles não são os melhores músicos que existem, são? Mas suas músicas são adoradas. Essa é sua dica sobre o que o mundo quer das pessoas criativas. Eles querem algo pra adorar. Dê ao mundo algo para ser adorado.

@e: Obrigado, Terry! Definitivamente, nós adoramos o seu trabalho.

TM: Obrigado pela paciência.

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Vale lembrar que você pode encontrar a obra de Terry Moore no ComiXology: basta clicar aqui.


Finally, we have here the final part of the interview with Terry Moore. In part 1, we talked about his creator owned series, his creative process and the Moore family plot to take over the world through comics (or something like that). Now, it’s time to hear what Terry has to say about the comics market, his influences and his advice for anyone who wants to be a professional creative worker. Enjoy!wpid-Photo-20141027010330.jpg

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talk show, with Terry Moore

@espinafrando: What are your major references/influences in arts, literature and comics? What inspires you?

Terry Moore: I love all things and people art and literature. I am just as inspired by classic novelists and 19th century musicians as I am by the greats of my own time. So, it’s really everybody. Anybody who finds that special place creative people get to when they devote their lives and minds to their work.

@e: What are you reading?

TM: A lot of variety. This month was Mind MGMT, The Creep, Green River Killer, Einstein’s Universe, and The History of Fender Amps.

@e: How do you see the comics market nowadays?

TM: I see comics as important but overlooked. They continue to be a source of original stories from some of the best writers and artists working. No other industry offers talent the unique opportunities they can find in comics, from steady income to fast turnaround of work to a vocal fanbase they can actual interact with. Many other creative jobs are isolating. The fandom of comics has kept this industry alive and inspired. It’s amazing to me that more people aren’t aware of comics and what they have to offer.

@e: What about digital comics? Do you like them?

TM: Yes. I don’t care for the motion comics because I worked in Television and advertising in the ’80’s-90’s and they used the same thing to pitch commercial ideas. It was rinky-dink then and it’s still a rinky-dink thing. (rinky-dink means pathetic and lame). So, I think motion comics are embarrassing. But reading comics on the go on your iWhatever is great. Even the screen ratio matches.

I see digital books as convenient and disposable. Now days the real books we buy are the ones we love and want on our book shelf because we want to read it over and over and see it full size on quality paper. It’s like the difference between have a jpeg of a car, or a real car in your garage. It’s two different things, both useful.

@e: What do you think about the creator-owned / self-publishing / crowd funding wave that appears to be getting more and more popular these days?

TM: I’m not sure it will last but it has certainly been a boost for many people. I love that fans are willing to support interesting creators and creations from the ground up. That is the marvel of the situation. Again, it’s the fans who are amazing, who supply the power to the ideas.

@e: What are the differences in the creative process between a job for hire in a big publisher like Marvel and a creator owned project?

TM: If you work for Marvel you are probably working on an iconic character. It’s like acting in Shakespeare… certain rules apply, you are there to breathe new life into a classic role. It’s an honorable job because you are helping to create the modern mythology. Maybe your contribution will be remembered as best representing and reflecting the people of this time, what we are like and what we need in our heroes today.

A creator owned project is a brave new world. You have a new idea, a new character, a new way to tell a story, and you want the world to see it. So you have to be the person that makes it happen. Then when it is made, you have to nurse the book along and try to get it to grow in the world. Creators don’t want to make an original story then turn their back on it when it’s printed. It’s your baby. You have to own it publicly, talk it up and introduce it to the world.

Working for mainstream and working creator owned are related but very different. And your life will be different, depending on which one you do.

@e: Do you know the work of any brazilian comics creators (I do know you know at least Fábio Moon, who did the back cover of Rachel Rising #1)? If so, what are your impressions about their work?

TM: I’ve known and admired Fabio Moon and Gabriel Ba for many years. I think I met Fabio at San Diego Comic Con years ago when I stopped him and said, “You look like my hero, Ayrton Senna!” He thought that was funny. We’ve been pals ever since. I had a big batch of Senna comics I brought back from europe once, so whoever was drawing those cartoons I admired. Actually, I’ve met most of the Brazilians I know in europe at shows there, particularly in Italy and France where the Brazilians artists are respected and included in every exhibit I’ve ever seen.

@e: What type of music do you like? Some creators say that music have an important part in their writing, to establish the specific atmosphere/mood that they’re trying to emulate. Does this apply to you?

TM: Yes. I’m a musician so music is key to my daily life and overall happiness. I listen to a broad range now because I still like every musical phase I’ve ever been through… and I’ve been through a lot of them. I like everything from Chopin to jazz to rock to metal. The only thing I don’t like is the diva singers in the U.S., or the boy bands and dancing nerds like Justin Bieber. I like the real musicians and anybody with something new to say. If that’s a Japanese film composer or a South Korean jazz guitarist or blues musician from New Orleans or Phish… great. It’s all good to me.

@e: What kind of advice do you give to all the writers and artists out there, trying to find a space in the professional market?

TM: Love the process of creating or nothing else will work out. You have to love drawing every day because it is your escape, it is what makes you unique, and what you find while working that will make you very happy. That happiness and those new discoveries will show in your work and that is what people are attracted to. Think about it… there are a ton of people who can draw and write and many of them are much better at it than you. BUT, they don’t have your ideas. They don’t have your mind. They haven’t sat at the drawing board or keyboard with you and discovered that unique thing you found only because you worked and worked to find it. So, technique is valuable, but what will make you a star is what’s in your head. The technique is there to make your ideas real. Think about the most popular bands in the world, they’re probably not the best musicians are they? But their songs are much loved. That’s your insight to what the world wants from creative people. They want something to love. Give the world something to love.

@e: Thank you, Terry! We definitely love your work.

TM: Thanks for your patience.

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It’s worth to mention that you can find Terry Moore’s work on ComiXology: just click here.

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