L.O.A.S. – Interestelar: o grande truque de Christopher Nolan

Christopher Nolan é um ilusionista. Com base em seu apuro técnico, Nolan sempre tenta criar uma aura de profundidade em seus filmes. Quando a ilusão é bem feita, consegue enganar até o olhar mais atento e nos faz relevar até os erros mais crassos (O Cavaleiro das Trevas, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Amnésia). Nem sempre o grande truque dá certo, porém. Às vezes, a mágica funciona durante todo o filme, mas o truque dá errado no final, ou nalgum momento você enxerga as cordas manipulando a marionete e a suspensão da descrença vai pro saco, ou ainda o roteiro simplesmente rui sob o peso da ambição desmedida do diretor (A Origem, Batman Begins, O Grande Truque).

Interestelar, a ficção científica que quer se fazer de épico profundo, cai no segundo time. É um filme com cenas belíssimas, como é costume do diretor, perfeito para se ver no IMAX. Mas, em sua tentativa de querer abarcar um universo de temas, Nolan acaba metendo os pés pelas mãos e entrega uma colcha de retalhos das mais bregas.

Antes de iniciar a espinafrada™ de fato, cabem algumas observações (uma espécie de disclaimer):

  1. Esta resenha deve ser melhor aproveitada por quem já assistiu ao filme. Não que haja uma tonelada de spoilers (existem alguns), mas porque tem o objetivo de analisar os “comos”, ao invés de resumir os “o quês”. Acredito que isso deve causar confusão para quem não sabe nada sobre a história.

  2. Se você curte uma crítica mais tradicional, com direito a sinopse e tudo mais, recomendo a do colega @arijon, aqui mesmo no espinafrando.com (embora discordemos bastante sobre o resultado alcançado pelo cineasta).

  3. Por falar em não saber nada sobre a história, tive uma experiência de que não desfrutava há tempos: entrei no cinema sem saber absolutamente nada além de quem era o diretor. Não só não fazia ideia de qual seria a trama, como também não imaginava quem estrelava a produção. Nem um mísero trailer eu havia visto. E foi ótimo! Zero expectativa, quase tudo foi surpresa (pelo menos até a metade do filme, mas chegaremos lá). Às vezes, embarcar rumo ao desconhecido é melhor do que esmiuçar toda e qualquer iota de informação liberada na imprensa, fica a dica.

O Diagnóstico

Interestelar é um filme grande (2 horas e 49 minutos que não cansam, como tem sido o default do diretor), às vezes grandioso. É uma boa ficção científica (nem de longe ótima), com cenas embasbacantes, trilha sonora arrebatadora, atuações quase sempre convincentes e uma história com pretenções gigantescas. E é aí que moram a maioria de seus problemas.

Interestelar e Christopher Nolan se perdem na escala, nos detalhes, na superexposição e na antecipação de surpresas, pontos essenciais para alcançar a suspensão da descrença e a imersão do cinespectador.

A Escala

Pra um filme que tem a prerrogativa do superlativo (Matamos a Terra! Acabou a comida no mundo! Exploramos o Universo! Buracos negros e de minhoca! Física quântica e relatividade! Quinta dimensão!), Nolan peca em mostrar o quão enorme são suas premissas. E com isso quero dizer basicamente que faltam panorâmicas e externas.

Sempre que algo de proporções épicas está para acontecer (ou enquanto acontece), a câmera:

A) Fecha nos rostos dos atores e não se vê o entorno.

B) Opta por filmar cenas internas, seja uma casa (afinal, quão espetacular pode ser ver uma tempestade de areia gigantesca atingir uma cidade, né?) ou um cockpit (porque ver o interior de uma nave é muito mais legal do que o inimaginável acontecendo do lado de fora).

C) Falha miseravelmente em demonstrar a escala por falta de referencial. —”Uma onda do tamanho de uma montanha!” —”Vamos filmar na altura de um Fusca e próximo às pessoas, de modo que o fundo do cenário seja apenas água. Assim, ninguém consegue enxergar o tamanho da encrenca.” Nesse quesito, Nolan podia tomar umas aulinhas com Guillermo Del Toro (Círculo de Fogo) e até com Alfonso Cuarón (Gravidade), dois cineastas que exploraram de forma perfeita a imagem da insignificância do homem ao lado de monstros gigantescos e da infinitude do universo, respectivamente.

Na verdade, acho que nunca vi uma ambientação no espaço sideral ser tão claustrofóbica. O apego que Nolan tem com planos fechados em Interestelar é tanto que demorou uma meia-hora pra entender o design da espaçonave principal e dos robôs que se confundiam com o cenário do cockpit.

[Aliás, parabéns grandão para a direção de arte. O design escheriano da unidade TARS já nasce clássico no panteão robótico da ficção cientifica.]

Há outro vício do diretor, que incomoda menos, mas incomoda: as cenas grandiosas são fugazes. Pense no quanto a cidade “dobrável” de A Origem parecia incrível na divulgação e no quão pouco ela aparece de fato no filme.

Os Detalhes

Veja bem, algumas inacuidades científicas não são o verdadeiro problema e são até esperadas. Afinal, é preciso tomar certas liberdades para se contar uma história que entretenha. Pegue o caso do astronauta que atravessa o buraco negro e sobrevive: não há nada na ciência atual que corrobore a situação (embora seja justo dizer que não há nada além de teoria que a desminta), mas é um exemplo perfeito de liberdade criativa que funciona, pois, do contrário, o filme acabaria ali —é por isso que se chama de “ficção”.

No entanto, há tantas pequenas inconsistências e coincidências forçadas espalhadas ao longo do filme que o efeito prático é matar a verossimilhança, “tirando” o cinespectador da história.

Só na primeira hora, dá pra reclamar:

  • do ótimo conceito da poeira (para tempestades de areia do porte pretendido, é preciso que a areia venha de algum lugar desértico, paisagem bem diferente dos campos e rios mostrados);

  • do cerne da sociedade rural (se a raça humana está dependendo exclusivamente de 1 ou 2 culturas de vegetais para se alimentar, as pessoas deveriam sofrer de algum grau de desnutrição ou anemia, não? E, ainda, se há várias pragas acabando com as plantações, por que o resto da vegetação —gramados, árvores, arbustos etc.— não é afetado? Ou, se a NASA gasta secretamente os tubos para uma missão em busca de uma nova Terra, não seria mais urgente investir em pesquisa para impedir a praga ou para aproveitar as plantas não afetadas —árvores, arbustos etc.— para alimentação humana, solução aparentemente mais fácil de ser bem sucedida do que dar um rolê do outro lado da galáxia?);

  • do falso axioma de que não se precisa de engenheiros numa economia rural (provavelmente Nolan nunca se deparou com o conceito de engenheiro agrônomo);

  • da conveniência de Coop (Matthew McConaughey) encontrar seu antigo mentor na base secreta —o professor Brand (Michael Caine, no piloto automático)— e imediatamente ser convidado como piloto de uma missão espacial planejada há anos e que aparentemente não tinha outro motorista de espaçonave, mesmo que esteja pronta pra zarpar. Vale lembrar que há décadas o cara não pilota —treinamento pra quê? Deve ser como andar de bicicleta.

E ainda nem saímos dos EUA pra explorar o espaço —dá pra imaginar o que vem depois, quando entram na equação a física quântica, a teoria da relatividade e “o poder do amor”.

[McConaughey, aliás, está bem, num papel nada desafiador. Ainda assim, nos poucos momentos em que é verdadeiramente exigido, somos lembrados do porquê do ator estar na moda, após a crescente sequência de acertos —Killer Joe, Magic Mike, O Lobo de Wall Street, Clube de Compras Dallas, True Detective]

Criar um universo ficcional não é tarefa fácil, mas seria ótimo se o diretor dedicasse parte de seu afã meticuloso a testar as leis que regem seu universo e verificar se funcionam de fato.

A superexposição (ou “Diálogos Impertinentes”)

Sabe aquela máxima de que as artes visuais precisam “mostrar” ao invés de “falar” o que acontece?

Sabe aquela característica do Christopher Nolan, de explicar tudo tim-tim por tim-tim?

Em Interestelar, a primeira é ignorada completamente, e a segunda, exacerbada ao máximo. Nolan, enfim, se consolida como o Chris Claremont do cinema.

[Nota do editor: Chris Claremont é um conhecido roteirista de quadrinhos, famoso por sua reformulação dos X-men no final da década de 70 e por sua ânsia de descrever o que a arte mostra em longos recordatórios e diálogos prolixos]

Chega a ser cômico. É coisa do tipo um personagem explicar o que vai acontecer, a cena mostrar o fato acontecendo, um personagem explicar ao outro o que está acontecendo e o outro responder após o fato acontecido dizendo o que aconteceu. Nem Abbott & Costello poderiam fazer melhor. Simplesmente não há como não se desconectar da história quando isso acontece.

O que nos leva ao último ponto.

O Roteiro e suas (Não) Surpresas

Imagine que você não saiba absolutamente nada sobre o filme antes da sessão de cinema começar (como foi o meu caso). Tudo o que acontece no 1º ato e cada aparição de um novo ator, formando um elenco estelar, são surpreendentes. Há realmente um frescor de ideias ali, uma distopia terrestre diferente e crível (quer dizer, crível se você ignorar completamente Os Detalhes).

Basta a NASA, o professor Brand e o plano detalhado entrarem na jogada para tudo virar um longo jogo de ligue os pontos. Tudo o que acontece a seguir é antecipável, ou porque clichê, ou porque as “pistas” aparecem tão claras nos diálogos que poderiam ser fluorescentes. E não precisa ser um Einstein pra sacar, basta um pouco de bagagem pop e prestar atenção.

É como em A Origem, cuja tentativa de parecer profundo e complexo se baseia puramente em nós de roteiro, chegando a confundir alguns cinespectadores que acharam um final aberto em algo que é tão direto quanto um tapa na cara. Nolan simplesmente não é capaz de qualquer tipo de sutileza.

O Veredito

Paradoxalmente, o filme ainda vale o preço do ingresso no cinema, mesmo com tanto depondo contra.

Há bons momentos, e é esteticamente bonito.

Só não vale ser idolatrado, chamado de sci-fi do ano (além de ser fraco, esse título é de Sob a Pele e ninguém tasca) e sequer ser comparado à 2001 e Kubrick.

Veja sem expectativa. Não é inédito, tampouco é mágica, mas até a ilusão pode ser interessante (embora nem sempre seja memorável).

 

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