espinafrando a estreia: Batman Vs. Superman – A Origem da Justiça

herói

*nome masculino*

  1. indivíduo que se destaca por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de caráter, ou outra qualidade considerada notável.

vilão

*nome masculino*

  1. pessoa vil.

justiça

*nome feminino*

  1. virtude moral que inspira o respeito pelos direitos de cada pessoa e a atribuição do que é devido a cada um; equidade.

justiçar

*verbo transitivo*

  1. punir com pena de morte.

***

São tempos sombrios. Tempos em que o cinespectador em geral e o fã de super-heróis em particular têm de enfrentar duas das maiores ameaças que assolam este mundo: o analfabetismo funcional e a intolerância cegante. Pelo menos, é o que dá para depreender de Batman Vs. Superman – A Origem da Justiça, um projeto que começa errado já no conceito (e no título original, que insiste em sumir com o S na abreviação de VERSUS).

Por onde começar a demolição?

conceito e adaptação dos personagen

O que é Batman Vs. Superman? Ou, indo às origens, o que é Herói contra Herói?

Qualquer leitor de quadrinhos da DC ou Marvel que se preze sabe que é um recurso fútil, normalmente utilizado como caça-níqueis (ao realizar encontros de propriedades intelectuais com sólidas bases de fãs, dobrando o público-alvo e o faturamento potencial) ou como masturbação mental freudiana pré-adolescente para estabelecer quem é mais poderoso (ou: “o meu é maior que o seu”).

Quando acontece, a piada recorrente entre os leitores é adivinhar o enredo: heróis se encontram, heróis cometem um mal-entendido, heróis se batem, heróis percebem o mal-entendido, heróis se juntam e batem nos vilões. Invariavelmente, os leitores acertam. São raras as exceções que deixam de ser um evento e trazem uma boa história.

No caso de BvS, a direção escolhida é a pior possível. É sim um caça-níqueis e é sim uma fantasia pré-adolescente, só que de um hipotético espectador com mais de 35 anos com sérios problemas psicológicos.

O que me lembra um diálogo entre Stan Lee e Jason Lee em Barrados no Shopping, filme do Kevin Smith. Se a memória não falha, Stan conta sobre as motivações e metáforas que usou para criar seus heróis (Homem-Aranha, Hulk, X-men), enquanto Brody (personagem de Jason Lee) quer saber se o pinto do Coisa também é de pedra. Zack Snyder, o diretor de BvS, é esse tipo de cara.

Descontando-se a questão de partir pra um quebra-pau entre supostos mocinhos antes mesmo de se esgotar as possibilidades de um universo ficcional que ainda não saiu de seu Big Bang, o que se vê são as motivações pífias dos personagens, assim como seus arquétipos. Esses Superman e Batman não são heróis na acepção da palavra. Não há nada que façam que se prove admirável e o exemplo que dão é, no mínimo, irresponsável. São justiceiros que praticam justiçamento.

Os executivos que deram e aprovaram a ideia torpe de que o público está mais interessado em ver brutamontes fantasiados em guerra do que ver heróis salvando o dia só podem ser sociopatas. Batman, Superman, Mulher-Maravilha e a Liga da Justiça não são anti-heróis. O próprio conceito de anti-herói só funciona em contraponto ao arquétipo de herói, o item mais em falta em BvS. É tão difícil compreender esse conceito básico de narrativa? Aparentemente, a resposta é sim. Pois é o que acontece na indústria e no gênero desde que Alan Moore e Frank Miller tiveram sucesso desconstruindo o mito em visões alternativas ao establishment, “realistas”, fatalistas, grim & gritty. Que só funcionam por se contrapor ao ideal já estabelecido, em contos fechados e exercícios imaginativos.

A reação que vimos nos quadrinhos mainstream de supers entre os anos 80 e, principalmente, 90 (e que vai e volta em maior ou menor grau desde então) parte da falácia de repetir uma característica de algo de sucesso para ter sucesso, algo comum na indústria do entretenimento: uma história dark deu certo? Façamos apenas histórias dark. Uma história com humor deu certo? Façamos apenas histórias com humor. O filme de herói com censura 18 anos foi bem de bilheteria? Aumentem a violência. Fulana chegou ao disco de ouro? O jeito é investir no ritmo. O que esquecem é que o segredo do sucesso está na criação da boa história, da boa música, do bom filme, não no jeito de executar.

Infelizmente, esse é o problema de BvS. Seus criadores se concentraram no poder da imagem e da execução de suas referências e se esqueceram de criar conteúdo e estofo. É por isso que o projeto implode sempre que se questiona o que acontece na tela. Porque não há inteligência no que os personagens fazem. Porque 1 minuto de diálogo seria suficiente para quebrar a premissa de luta entre os dois protagonistas. Porque parecem imagens bidimensionais, sem reações humanas, mesmo com o alto investimento em técnicas de filmagem em 3D. Porque não há nem coerência interna (que dirá externa). Porque acreditar que esses personagens se comportariam da forma como fazem é reduzi-los a jumentos e cavalgaduras. Porque é justificar o sucesso do Cavaleiro das Trevas de Miller pelo fato do Batman dar uma surra no Superman.

(Parêntesis: não considero Cavaleiro das Trevas uma obra-prima inquestionável, nem seu criador)

Supers, há aos montes. Mas não há heróis em BvS. De certa forma, essa é a causa do maior crime perpetrado neste projeto: alienar completamente o público infantil. Seria irônico focar aventuras de pessoas fantasiadas apenas em marmanjos, se não fosse trágico.

Não alivia o fato de BvS ter sido concebido aos trancos e barrancos. Para quem não se lembra: deveria ser apenas Man of Steel 2, até que a recepção desastrosa do 2º reboot do Superman e a ascensão do universo cinematográfico da Marvel/Disney forçaram a DC/Warner a subir a aposta — incluindo Batman, depois Mulher-Maravilha às pressas, depois transformando a história em pré-origem da Liga da Justiça e universo compartilhado, a exemplo da concorrência.

Aliás, falar que a Mulher-Maravilha é o melhor do filme (apesar de ser) é mais insulto que elogio. O design de personagem é ótimo e Gal Gadot tem presença, mas é preciso lembrar que estamos falando de um papel que se resume a 3 ou 4 diálogos, uma cena de luta e um tema com guitarras e tambores. Se juntar todo seu tempo de tela, deve ficar em torno de 6% das 2 horas e 31 minutos.

roteiro e direção

Espero que tenham notado que chamei de projeto, porque falta muita coisa em Batman Vs. Superman pra que seja chamado de filme. Amontoado de cenas talvez seja a melhor definição.

Pegar no pé de Zack Snyder por causa de câmera lenta não passa de birra. Principalmente quando há muita coisa muito mais grave do que estilo pessoal.

A montagem é um desastre pior do que a destruição de Metrópolis, por exemplo. Muitos colegas apontaram a cena em que Perry White pergunta pelo paradeiro de Clark Kent, onde o corte simplesmente ignora o desenvolvimento natural e mostra outra cena com outros personagens sem responder a questão. Mas isso é fichinha perto da montagem do final, que dá um verdadeiro nó no espaço-tempo ao colocar personagens num mesmo ambiente, para depois separá-los por quilômetros de distância no corte e voltar para o mesmo evento, numa espécie de flashforwardback canhestro.

Ou o fato de ser possível enxergar os arranha-céus de Gotham City a partir de um prédio de Metrópolis, como se fossem Santa Bárbara D'Oeste e Americana no interior de São Paulo, divididas por uma rua.

O que dizer de diálogos capitais que se contradizem na mesma fala? É o que acontece nos conselhos que Martha Kent dá a Clark. Depois disso, exigir coerência para a personalidade de Johnathan Kent entre BvS e Homem de Aço realmente é pedir demais.

Mas Snyder e Goyer, diretor e roteirista, se superam nas resoluções de seus impasses. Não importa que a explicação seja estapafúrdia e que não haja nenhum indício anterior que a corrobore, a dupla dinâmica não se furta a fazer o cinespectador de palhaço. Vide, principalmente, o plano de Lex Luthor, o embate que dá título ao projeto, o embate da tríade de justiceiros contra o chefão final, a criação do chefão final, as participações de Lois Lane e demais coadjuvantes, ou, como diria Raul Seixas, o início, o fim e o meio.

Inclusive, chamar o monstro Apocalipse de chefão final talvez seja a comparação mais justa que se pode fazer. O roteiro de BvS parece se inspirar num game de luta. E, como qualquer um que já tenha jogado um game de luta sabe, enredo de game de luta é apenas desculpa para personagens caírem na porrada.

Zack Snyder, David Goyer e os estúdios Warner conseguiram superar as expectativas desse blog morto-vivo e seguem na mesma toada de destruição do gênero de super-heróis no cinema. Só podemos pedir piedade.

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