L.O.A.S. – Arcade Fire São Paulo 09.12.17

Arcade Fire

Uma máquina humana. Tudo aparenta ser meticulosamente ensaiado e soa como demasiado espontâneo. Esse é o estado da arte que o Arcade Fire apresenta ao final de 2017.

Essa é a impressão ao final de 2 horas e meia de um ESPETÁCULO-COM-LETRAS-CAPITAIS-TUDO-AGORA, a passagem do tour Infinite Content pela capital de São Paulo.

Bem diferente do cenário que se pintava horas, dias, semanas e meses antes da apoteose no sambódromo paulistano, indicando o provável fracasso do ano: uma turnê ambiciosa em cima de um disco conceitualmente ambicioso mas musicalmente mal resolvido, mal recebido por grande parte da crítica e público, que rechaçou o revival discothèque no som e o marketing meta-fake-news que pretendia criticar a cultura-fake news-consumo-ismo.

Ingressos encalhados (não só no Brasil), mudanças de última hora nos locais do show (RJ) ou na configuração do palco (SP), promoções para tentar evitar o vexame anunciado.

A derrocada do Arcade Fire já havia sido decretada, sem chance de defesa.

Felizmente! O fato é que essa conjuntura tornou o show acessível, e lá fomos nós na qualidade de testemunhas para ver o circo pegar fogo.

A “ausência” do “público” propiciou uma das melhores experiências que já tive em shows de porte: sem trânsito, sem filas, sem empurra-empurra, com ingressos baratos (!), com conforto (!), com boa visão do palco.

Ainda havia pouca gente no sambódromo (umas 2 mil pessoas?) quando a banda colombiana Bomba Estéreo subiu ao palco e mostrou uma mistura de cumbia eletrônica bacaninha para uma plateia fria, durante uma hora. Apesar do esforço, não conseguiram vencer totalmente a apatia dos consumidores do Arcade Fire, que ao final da apresentação já chegavam a cerca de 5 mil, número que aumentaria para aparentemente 8 ou 9 na próxima meia hora enquanto os roadies terminavam a montagem para o grande pequeno show principal, num palco que emulava um ringue de luta.

Bomba Estéreo

21:30. O locutor anunciava pontualmente a entrada dos lutadores do Arcade Fire no corner vermelho, pesando somados quase uma tonelada, causando vergonha alheia.

A apreensão com o fracasso dissipou-se aos primeiros acordes da vinheta Everything_Now (continued), seguida pela música de abertura do criticado álbum homônimo, Everything Now, a execrável cópia do ABBA.

Acontece que o Arcade Fire subiu ao ringue completamente alheio à má vontade, como a máquina humana do primeiro parágrafo, imbuída com o espírito demolidor de um Matthew Murdock, de um Rocky Balboa canadense, tratando de arrebatar a plateia com suas performances individuais e coletivas numa celebração da música, do visual, da alegria e tudo o mais. E uma arma secreta: os novos arranjos que dissiparam a empáfia disco e injetaram peso e calor, redimindo as novas composições. Foi o flop que não houve.

Arcade Fire

[Claro que não prejudicou em nada tocarem na sequência o hit indie Rebellion (Lies) do álbum de estreia, Funeral, em versão Champion Edition]

Se ainda havia alguma alma perdida no Anhembi que duvidava do poder agregador da banda (spoiler: não havia), ela também foi conquistada pelo carnaval de gringo de Here Comes The Night Time, engrossado pela bateria paulistaníssima da Acadêmicos do Tatuapé, meu, uma ironia desproposital que não passou desapercebida na terra-túmulo-do-samba. Mas quem liga pra figuras de linguagem e semiótica quando se está em catarse coletiva?

Arcade Fire

E foi essa a matemática da coisa: 9 membros da banda alternando instrumentos e protagonismos para executar um setlist que alternou canções repaginadas dos 5 álbuns (9 de Everything Now, 5 de Reflektor, 4 de The Suburbs, 2 de Neon Bible e 5 de Funeral): baladas, rocks, dancehall, discoteca, ragga, indie. Mais luzes. Mais clipes psicodélicos e palavras de ordem em português no telão. Mais passeios de Win Buttler e Régine Chassaigne em meio aos fiéis da área VIP.

Arcade Fire

Se não havia a grandiosidade e a pompa do show no Lollapalooza de 2014, havia a mesma energia elétrica de comunhão, mais um incremento na técnica musical (ao contrário do Lolla, Régine estava com seus agudos afinadíssimos).

Arcade Fire

O encerramento veio com o hino Wake Up, cantado a plenos pulmões coletivos por todos os indivíduos presentes. E a volta da bateria da ZL, que seguiu tocando por uns bons 15 minutos para os canadenses no caminho de saída do palco enquanto o que restava do público da área VIP os cercava embasbacados (o samba continuou nos bastidores, vimos os calçados do Arcade Fire dançando por debaixo da grade).

Arcade Fire

Arcade Fire

Fim de noite perfeito para uma noite perfeita. O monstro Arcade Fire esnobou a esnobada do público que não veio, doou um dólar de cada ingresso para a caridade, deu de ombros pra o prejuízo da turnê. Parafraseando a famosa frase sobre Zico e a seleção de 82, se o “público” não quis aparecer, azar do “público”. Quem veio saiu com três certezas: de ter testemunhado e participado de um evento apoteótico, que o Arcade Fire é a maior banda do mundo e que ainda tem muita lenha pra queimar.

Setlist do Show

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