L.O.A.S. – Twin Peaks: The Return – Episódios 17 e 18

Episódio 17:

Após 17 horas, David Lynch e Mark Frost amarram tudo em 30 minutos que parecem 2 horas, tal é a quantidade de informação incrustada nesse final de uma série que esperamos mais de 25 anos para acontecer. Finalmente falamos sobre Judy, derrotamos Bob e somos apresentados à verdadeira Diane. Agora, algumas coisas vão mudar, porque o passado determina o futuro. Descobrimos que vivemos num sonho e esperamos rever todos esses personagens novamente. Mas quem é o sonhador? Seria o rosto sobreposto de Dale Cooper? E ainda faltam 90 minutos para Twin Peaks acabar. O que ainda falta acontecer?

Falta um encontro entre Coop e Phillip Jeffries, a grande chaleira que um dia foi David Bowie. Faltam as 4 pistas que o Bombeiro deu no início do 1º episódio: O Som, 430, Richard e Linda, 2 pássaros com 1 pedra. Falta o sentido de tudo isso. Então, Mark Frost e David Lynch nos dão isso.

Dale, Gordon e Diane vão ao Great Northern Hotel, Dale se despede dos dois para executar seu plano de acertar 2 pássaros com 1 pedra, a quarta pista. Usa a chave 315 e é transportado pelo Homem de Um Braço para o quarto de Jeffries, que invoca o símbolo de Judy, que se transforma num 8 com uma bolinha dentro, que rotaciona no próprio eixo. Cooper pede e Jeffries o transporta para Fire Walk With Me, para a noite em que Laura Palmer morre nas mãos de Bob/Leland Palmer, para intervir e impedir a tragédia.

Cooper, como o Orfeu que desceu ao submundo para salvar sua Eurídice de Hades, pega Laura Palmer pela mão e a conduz de volta para casa. O corpo embrulhado em plástico desaparece das margens do rio. Pete Martell finalmente consegue pescar. Na casa dos Palmer, Sarah Palmer grita e arrebenta o retrato de Laura Palmer com uma garrafa. Como Orfeu, Cooper olha para trás seguidamente antes do amanhecer, para se certificar que Laura Palmer continua a segui-lo. Ouvimos O Som, a 1ª pista. Como Eurídice, Laura Palmer desaparece. Ouvimos seu grito. Julie Cruise encerra o episódio 17.

Episódio 18:

Faltam 60 minutos para o fim. Mr. C queima no Red Room. O Homem de Um Braço cria um novo Dougie e o entrega à Janey-E e Sonny Jim. Cooper reaparece no Red Room para escutar novamente a pergunta. É o futuro ou é o passado? O Braço pergunta se essa é a história da garotinha que morava no fim da rua. A mesma pergunta que Audrey fez à Charlie alguns episódios atrás. Laura sussurra algo no ouvido de Dale Cooper, que reage com espanto. Laura grita e some. Coop continua no seu périplo pelo Red Room, encontra Leland Palmer que pede novamente para que ele encontre Laura.

Dale está de volta à Glastonbury Grove e encontra Diane esperando por ele. Os dois embarcam numa road trip num velho Lincoln preto por uma estrada que segue em paralelo aos fios de eletricidade, símbolo do poder das entidades do Red Room, até a milha 430, a 2ª pista.

O carro é transportado para outra realidade e os dois fazem check in num motel em Odessa. Acontece uma transa anticlimática, ao som da apocalíptica My Prayer dos Platters: Cooper parece desinteressado, Diane cobre o rosto de Dale e chora enquanto tenta alcançar um orgasmo. No dia seguinte, Diane se foi e deixou um bilhete. Nele, Linda termina com Richard, porque não o reconhece mais. A 3ª pista.

Dale Cooper deixa o motel, que já não é mais o mesmo da noite passada, num Lincoln Preto novo, que já não é mais o mesmo da noite passada, e se dirige para a Cafeteria da Judy, em busca de uma garçonete que não apareceu para trabalhar. Presencia uma cena de assédio à garçonete que foi trabalhar e intervém de maneira violenta. Ele já não é o Dale Coper de Twin Peaks, mas o Richard de Odessa.

A garçonete que não estava onde devia é Carrie Paige/Sheryl Lee. Ele insiste que ela é Laura Palmer/Sheryl Lee, e que ele está lá para levá-la para casa. Carrie concorda em segui-lo, porque precisa sair de Odessa. Carrie Paige tem seus próprios problemas, como o cadáver na sala pode atestar.

Faltam 20 minutos para acabar essa insanidade, e Lynch decide pegar uma longa estrada semi-vazia até Twin Peaks. Poucas palavras são trocadas entre Carrie Paige/Laura Palmer/Sheryl Lee e Richard/Dale Cooper/Kyle MacLachlan.

Faltam 10 minutos para acabar. Eles chegam à Twin Peaks, Washington State. Passam pelo RR Cafe. Chegam à casa dos Palmer. Carrie Page não reconhece nada. Dale bate à porta. É atendido por uma mulher que nunca ouviu falar em Sarah Palmer. Ela comprou a casa da Sra. Chalfont. Seu nome é Alice Tremond. Os dois nomes já foram usados na série por uma mesma personagem: a velinha que é uma entidade do quarto acima da loja de conveniência.

Cooper se desculpa, se despede, está completamente desorientado. Que ano é esse? Carrie Paige contrai a face, arregala os olhos, a voz de Sarah Palmer chama por Laura. Laura Palmer grita com a força de toda a existência. Um clarão de eletricidade, as luzes da casa dos Palmer se apagam, a tela se apaga. Cooper está de volta ao Red Room, com Laura Palmer sussurrando em seu ouvido. É o futuro, ou é o passado? Fim.

Conclusão

E qual é o sentido de tudo isso? O sentido é que Dale Cooper continua falhando no seu mais importante teste, continua a se deixar levar pela obsessão de ser o cavaleiro branco que salva a donzela, cego para o sofrimento que sua obsessão causa a quem o cerca. Continua sendo um perfeccionista, mesmo que já tenha atingido o objetivo principal, e por isso acaba estragando o trabalho de novo e de novo, num ciclo infinito. O 8 expelido da Grande Chaleira chamada Phillip Jeffries não é um 8: é o símbolo do infinito ♾. A bolinha é o agente Cooper. Quando o 8 gira em torno do seu próprio eixo e a bolinha muda de lado, Jeffries apenas está dando mais uma dica e demonstrando que se Cooper continuar nesse curso de ação, continuará preso ao ciclo infinito. É o futuro ou é o passado?

No 1º episódio, o Bombeiro chama Dale Cooper para conversar, pede para escutar O Som e para se lembrar de 430, Richard e Linda e 2 pássaros com 1 pedra. Ele anuncia que Algo está na cada deles agora. Cooper responde que entendeu. Ele está mentindo.

O Algo que está na casa do Bombeiro é o Mr. C, no momento em que ele é capturado pela armadilha do Bombeiro no Palácio do Jack Rabbit, no episódio 17, pouco antes de ser reintroduzido em Twin Peaks em frente à delegacia, para o confronto final. O alerta do Bombeiro para Cooper é: se lembre de tudo isso, para não repetir o mesmo erro. A arrogância de Cooper o leva a mentir, porque na verdade ele ainda não entendeu. Cooper está repetindo o ciclo dos 18 episódios infinitamente, porque acha que conseguirá ser perfeito e matar 2 pássaros com apenas 1 pedra: o 1º pássaro é derrotar o mal, nas figuras de Bob e Judy; o 2º pássaro é salvar Laura Palmer, a quem ele só conheceu em sonhos.

A 1ª parte do plano ele consegue realizar: é o final perfeito que acontece nos primeiros 30 minutos do episódio 17. Mas ele não consegue se contentar com isso e insiste em salvar Laura Palmer, nem que pra isso tenha que quebrar todas as leis do espaço-tempo.

O fato é que Laura não precisa e não pode ser salva, pois já cumpriu seu papel: é sua morte que traz Dale Cooper à Twin Peaks e que desencadeia o restante do plano do Bombeiro para derrotar o mal, um plano que ele colocou em andamento em 1945, após o teste da bomba H no Novo México que liberou Jowday e Bob em nosso plano. Um plano que deveria culminar no final do trigésimo minuto do episódio 17. Mas que não termina porque Dale Cooper não consegue admitir que cumpriu sua missão e insiste em matar o 2º pássaro. Mais vale um pássaro na mão que dois voando.

A cada vez que ele salva Laura no passado, o futuro é reescrito e Cooper nunca vai à Twin Peaks, fazendo com que o plano do Bombeiro falhe. Por isso, não resta alternativa ao Bombeiro: ele precisa remover Laura/Eurídice das mãos de Cooper/Orfeu na floresta, e esperar que, da próxima vez, Cooper não olhe pra trás, se lembre das consequências, do que acontece na realidade de Richard e Linda e finalmente se liberte de sua obsessão.


Agradecimentos a Mark Frost e David Lynch, pela obra de arte, e a John Thorne, Jeff Jensen e Darren Franich, que ajudaram a iluminar o caminho e inspiraram a conclusão.

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